Os três acontecimentos – Parte I

Por muito tempo, achei que fosse louca. 

Quando em crescimento, a falta de confiança dos adultos nos meus dizeres me podou. Crianças não sabiam de nada. Eu acreditei nisso. Diferentemente das meninas da minha época, vivi experiências que me fizeram duvidar de mim mesma. Possuía amigas, sim. Boas e compreensivas amigas, inclusive. Mas nunca me senti plenamente encaixada em lugar algum. Acreditava que o que eu vivia era incompartilhável. Você já se sentiu assim?

No dia-a-dia da capital, eu sonhava com o interior e com tudo que ele me proporcionava. Queria partilhar minhas vivências, mas faltava-me coragem para me expor. A poda havia funcionado. Quando no interior, era a menina da cidade grande. Influenciada pela modernidade e, por isso, um tanto quanto delirante e até inconveniente. Em ambos, a jovem que guardava para si o que via e sentia. 

Demorei anos para falar a respeito do que vivia [leia o relato “O Visitante” para saber mais]. Ao me expressar, senti-me vista. Às vezes como esquisita. Às vezes como uma curiosidade. Pelo menos não precisava mais me esconder.

Ao que parece, nem eles. 

Conforme me mostrei ao mundo, acho que os seres que me acompanham se sentiram mais confortáveis a se apresentarem também. Ainda para mim especialmente, mas também com repercussões externas e visualizáveis para aqueles poucos que conviviam comigo.

Meu círculo de convivência não mudou tanto ao longo dos anos. Em casa, os pais idosos já ocupavam boa parte dos meus pensamentos e preocupações. Com a irmã mais velha estudando em outra cidade, eu era a responsável. Nas amizades, hoje vejo que por mais simpática e sociável que tente ser, embolo-me nas relações e acabo com poucas. Mantive algumas amigas de infância e outros coleguismos.

Por mais que goste de certa estabilidade, fiz questão de mudar certos aspectos da minha vida. Não me mantive no quarto de infância. Abandonei-o com a suposição de que abandonaria também tudo que ali aconteceu. Assim como acreditava que os cobertores me protegiam dos espíritos, confiava que as paredes me separariam deles. O novo quarto era meu. Finalmente, alguma individualidade. Hoje percebo que vivi o início da vida adulta compensando as faltas que senti na infância. 

A prova disso eram as paredes pintadas de rosa claro e a escrivaninha branca que combinava com a cortina de mesma tonalidade. Quando aberta, o sol iluminava a pequena prateleira com os poucos livros que possuía. Detalhes que representavam traços de uma personalidade que até hoje descubro. Agora sem correntes nas janelas, podia abri-las livremente para que o ar circulasse pelo apartamento já reformado. 

Alguns detalhes foram mantidos, claro. O armário de madeira ainda perdurou por mais alguns anos. O lustre antigo e dourado até hoje mantenho como antiguidade e lembrança de tempos que não retornam. Outros detalhes foram adicionados, por mais que nem sempre da forma que eu sonhava. Junto à escrivaninha, uma cadeira tradicional azul e preta, por mais enfadonha que fosse, era o que me permitia estudar horas a fio.

Por mais pueril que fosse meu ambiente íntimo, do lado de fora, portava-me como adulta. À tarde, após a faculdade, o estágio me ocupava com seus infindáveis papéis e demandas. Sentia-me bem em ambientes formais e intelectuais e ali permaneci por muitos semestres aprendendo com dois superiores. 

Em determinada sexta-feira, concentrada em meus afazeres e buscando finalizar uma lista de procedimentos, fui interrompida por uma mensagem no celular: “O que você fez com sua cadeira?!”. Ciente de que minha irmã regressaria para o final de semana, imaginei que havia chegado mais cedo em casa e entrado em meu quarto por qualquer razão. O que essa mensagem queria dizer? Telefonei rapidamente para ela e questionei. “Você vai ver!”, ela respondeu. Minha mãe, ao fundo, parecia agitada. Franzi a testa em estranhamento, mas desliguei. Um exagero, imaginei.

Ao atingir o horário final, já sozinha na sala de trabalho, desliguei o computador e retirei-me. Ainda estava claro, que sorte! Sentia-me mais segura assim. Chegaria cedo em casa e poderia conversar com minha irmã, descansar, enfim. Pego o ônibus e reflito sobre a cadeira… O que ela quis dizer? Parecia nervosa. Logo o pensamento passou. Assim como o tempo. Saí do coletivo e desci a rua, rumo ao lar. Passei normalmente pelo portão principal e pelo segundo portão. Ao destrancar a porta do apartamento, visualizo minha mãe e minha irmã com os olhos arregalados e feições nervosas. “O que você fez?!”, questionaram. 

Instintivamente, como um traço familiar responsivo, arregalei os olhos em retorno e devolvi o questionamento: “O que, gente?!”. Já nervosa, adentrei pelo apartamento em direção ao quarto. Reagiam como se a cadeira fosse feita de ouro e tivesse sido destruída. O que de tão ruim poderia acontecer com uma cadeira? Sempre tive consciência dos obstáculos financeiros enfrentados pela minha família, mas uma cadeira seria assim tão difícil de substituir? É possível que algo muito desagradável pudesse atingir um objeto tão… comum?! 

Sim, é possível. 

Ao adentrar no cômodo, as cortinas fechadas obstruíam a passagem da luz, que remanescia somente por debaixo dos tecidos, levemente esvoaçantes por uma suave brisa que ainda passava pelas frestas das antigas janelas. A cama meticulosamente ordenada, assim como eu deixava todas as manhãs ao sair para minha rotina de estudante e estagiária. Os livros na prateleira, devidamente organizados por tamanho. A escrivaninha, com minhas flores de plástico rosadas e um pequeno espelho de mesa prateado, abrigava embaixo a dita cadeira que, destoante de toda a estética feminina do cômodo, puxei para visualizar.

“Vruuuc” as rodinhas pretas fizeram pelo liso chão de porcelanato que escolhemos durante a reforma. O assento acolchoado azul guardava resquícios de uma espécie de poeira preta e espessa. Parecia que algo escuro havia sido peneirado ali. Levantei o olhar para o encosto do objeto e visualizei o estrago. O nervosismo das pessoas não era sobre a peça em si, mas sobre a estranheza que a deterioração causava. O encosto abrigava um rasgo que se iniciava bem no topo do encosto e se delongava até sua metade. Relativamente fina no início e no final; mas grossa em seu meio, a fenda era uma marca que dilacerava, de forma bastante profunda, o tecido.

A trama azul do pano havia sido completamente destruída por este profundo arranhão, que não aparentava acidental. Parecia que algo havia cravado uma longa unha que arrastou ao longo do encosto, queimando-o intensamente. Estremecida, com minha mãe e irmã paralisadas na porta do quarto, passei a mão pela fenda e senti sua profundidade. O dano, tão abissal, me permitia inserir os dedos na fissura e sentir a parte final do espaldar da cadeira. Senti a garganta secar e os ombros se encolherem involuntariamente. 

Levei a mão próxima ao nariz e senti o cheiro adentrar meu corpo como se ainda queimasse  ativamente. O ardor me recordou uma podridão familiar, mas ao mesmo tempo desconhecida. Paralisada diante da cadeira, observei que o pó escuro do assento havia caído desse violento rasgão que agora desfigurava o objeto. O que quer que tivesse feito esse corte, parecia imbuído de um ódio sedento que me intrigou e me assustou ao mesmo tempo. 

Lembro-me de sentir uma certa repulsa, como se olhasse para uma ferida exposta e sangrenta. Curiosas, as outras duas mulheres da família aproximaram-se e encararam comigo a estranha situação. Tive meus pensamentos interrompidos com uma das frases mais estúpidas que já ouvi: “Será que você não deixou a chapinha ligada aí?”. Era possível que elas estivessem cegas?! “Claro que não! Olhe bem para isso!”. Eu não havia cometido este erro e o estrago não era sequer… humano.

Fui questionada com mais algumas hipóteses insensatas, até me rebelar e afirmar categoricamente que não havia causado aquilo! Relatei que fiz minha rotina matinal normalmente para sair, deixando a chapinha, inclusive, no chão do banheiro social. Ressaltei que deixo-a ali justamente para que possa esfriar e ser guardada quando eu retorno ao final da tarde. Parecia uma inquisição. Levei-as ao banheiro e mostrei “a prova” da minha inocência. A chapinha estava cuidadosamente colocada no chão, enrolada em seu próprio fio. Completamente fria. Eu não estava louca!

Minha defesa pareceu acalmá-las, ao mesmo tempo que trazia a tona mais suspeitas. Se não eu, quem? Ou o quê? Parecia que eu teria que explicar o inexplicável!

Assustada e um pouco revoltada, retornei ao quarto e puxei agressivamente a cadeira para fora do cômodo. Atravessei o corredor e a sala arrastando-a violentamente e dizendo que a colocaria na rua. Aquele objeto não ficaria mais um segundo em casa, especialmente não no meu quarto! Destranquei a porta brutalmente e desci as escadas como se carregasse uma mera sacola nas mãos. 

Olhando para cena hoje, não sei como conduzi o amorfo objeto tão rapidamente por três lances de escada abaixo. Passei pelos dois portões do pequeno edifício e arrastei-a morro acima até a esquina, onde ficava localizada a lixeira coletiva. Ali embaixo, aloquei a destroçada cadeira, esperando que alguém a coletasse. O que é lixo para alguns, é tesouro para outros.

Retornei ao apartamento e encontro minha mãe com os olhos arregalados no alto da escada. “Você jogou fora mesmo?”. O tom inquisitorial havia desaparecido e dado espaço a uma certa preocupação com a situação no geral. “Joguei!”, disse. Puxei uma cadeira da mesa de jantar e carreguei-a ao quarto, avisando que a usaria para os meus estudos a partir de agora. Economizaria minha pequena remuneração do estágio e compraria outra quando possível. Meu pai, relaxado no sofá em frente a televisão desde o primeiro minuto, deu de ombros. 

Minha mãe e minha irmã me seguiram ao quarto, onde perguntaram, agora em um timbre mais tranquilo, o que será que havia acontecido. Ciente do mundo espiritual e do interesse desses seres em minha vida, expliquei o que, para mim, já era óbvio. Eu não havia causado aquilo. Nem meus pais, os outros dois residentes fixos da casa. Minha irmã acabara de chegar na cidade. Ninguém mais esteve no apartamento desde o momento em que saí, quando definitivamente, a cadeira não estava assim. 

Só havia uma explicação que, para mim, era razoável. Tratava-se de uma marca espiritual, alguém queria se fazer presente! Expliquei que espíritos fortes podem aparecer diante de nossos olhos, como já haviam aparecido para mim. Que podiam também, com muito esforço, mover objetos. Podiam mudá-los de lugar ou até… marcá-los, como havia sido o caso. Naquela época, minha família já sabia das minhas crenças e havia se aberto um pouco para elas. 

Mesmo assim, todo o contexto gerava muita estranheza. Minha irmã parecia curiosa sobre o tema. Até acreditava em mim, mas… Minha mãe, rigorosamente católica, demonstrava certa desconfiança quanto ao que eu dizia. Sentia-me uma criança novamente. Desacreditada. Estaria ficando louca? O que quer que tenha acontecido, não podia ser racionalmente explicado. Logo, o assunto foi deixado de lado.

Até o segundo acontecimento. 

Como você pôde notar, caro leitor, este relato é a parte I de três eventos que ocorreram em um curto espaço de tempo no início da minha vida adulta. Naquela época, achava que mudar de quarto e me desfazer de objetos era suficiente. Eu estava começando uma nova vida, em um novo quarto. Isso não era suficiente? Descobri que não. Os objetos impregnam, sim, energia. Mais ainda, nós humanos. 

E você, já viveu situações inexplicáveis? Já teve seus objetos misteriosamente marcados? Quer saber qual foi o segundo acontecimento? Continue acompanhando e verá!

Até breve, 

A Mulher da Pena Dourada


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