Os três acontecimentos – Parte II

Confesso que tenho uma ética de trabalho perturbadora.

O que seria um elogio, evidencia em mim uma necessidade de aprovação intelectual e profissional que esmagaria qualquer pessoa. Esse traço vem da infância. Aprendi com meu pai a acordar cedo todos os dias e a respeitar as autoridades. Aprendi com minha mãe a cumprir rigorosamente tarefas estudantis e somente depois brincar.

Enquanto algumas amigas faziam aulas de inglês, balé ou piano, eu acompanhava meu pai no trabalho com certa frequência. Lembro-me de ficar bastante no escritório de um de seus amigos, que exercia seu ofício na sala ao lado e me recebia como uma sobrinha aprendiz. Ao passo que meu pai atuava na área da saúde, o colega era um intelectual que desempenhava sua função em um cômodo um tanto quanto escuro, com infindáveis papéis e livros espalhados. 

Apesar do incômodo gerado pela bagunça, a ambiência misteriosa e silenciosa me atraíam. Gostava da ideia de, ao passar pela ante-sala, encontrar uma penumbra com cheiro de história. Ao entrar pelo escritório, a parede ao lado da porta era preenchida por uma estante recheada de livros, a maioria de grossura considerável e com capas de couro. Enormes coleções de alguém que vivia para aquilo.

Sua mesa de trabalho era iluminada somente por um abajur que emitia uma luz em tom de âmbar. Uma máquina de datilografar, canetas requintadas, agendas e muitos documentos que eu não entendia o que diziam. Ele passava horas a fio trabalhando, sem sequer se levantar. Outra pessoa bastante rigorosa. A minha mesa, que me colocava de costas para ele, era menor e majoritariamente clareada pela luz que advinha do corredor do edifício, já que ele mantinha todas as portas abertas quando eu estava no recinto. 

Eu também tinha direito a uma máquina de datilografar e ali o tempo passava sem que eu notasse. O que eu escrevia eu não me lembro, mas gostava da ideia de preencher uma folha de papel inteira e, ao final, carimbar e assinar. No meu caso, utilizava o carimbo dele e rabiscava por cima, com o que seria minha “rubrica”. Confesso que não me recordo muito do restante do cômodo, que ficava escuro mas que, por alguma razão, não me incomodava como em outros locais.

Ali eu me sentia bem, como se abraçada por uma atmosfera profissional que era aconchegante o suficiente para me enfeitiçar. Achava que isso era pertencer ao mundo forense e segui o mesmo caminho. Hoje vejo que meu gosto era mais por estar dedicada a algo, quieta, escrevendo, preferências essas que assumi depois de adulta. Assumi também que gosto de ambientes misteriosos, como se algo estivesse sendo dito mesmo que tudo estivesse em silêncio.

A convivência regular com pessoas mais velhas rigorosas com suas profissões me construiu como uma adulta proeminente no intelecto e na seara profissional. Mas esses pontos também me forjaram uma pessoa um tanto quanto rígida e séria no trabalho e nos estudos, afinal, eles vinham em primeiro lugar. Durante a faculdade, portanto, o estágio nunca foi para mim uma mera etapa do curso. Era um espaço de seriedade e cumprimento de metas. Era um trabalho, de fato.

Minha personalidade focada me destacou perante meus superiores hierárquicos. A garota responsável e dedicada que tinha o trabalho e os estudos como prioridade. E de fato tinha. Seguia uma rotina rigorosa. Cumpria tantas tarefas que chegava a ser deixada sozinha no gabinete para lidar o que quer que surgisse. Sozinha, às vezes, até após o cair do sol, quando as luzes de todas as salas iam se apagando uma a uma, até somente restar a minha. 

Acostumei-me com essa ideia e com ter a sala quase que sempre para mim. Minha mesa era minha. Com as minhas coisas. Ao que parece, isso era – e ainda é – importante para mim em qualquer ambiente. O ritual era o mesmo: ao sair do elevador no sexto andar, cumprimentava o setor administrativo, dobrava uma esquina e seguia para o longo corredor de gabinetes que ficavam à esquerda. Do início já avistava, pelas sucessivas divisórias de vidro, o que era o meu destino. 

Ao chegar, abria a porta e me dirigia para a minha mesa, a primeira à direita, cuja tela do computador ficava visível para qualquer um que passasse por ali. Como estagiária, era entendido que eu poderia ser vigiada se fosse necessário. No caso dos meus superiores, suas mesas ficavam de frente para a minha, com as telas dos computadores para o fundo do cômodo, sem que pudessem ser vistas por qualquer um que passasse. 

De qualquer forma, nada precisava ser escondido, pois não era comum o trânsito de pessoas entre os gabinetes. Somente dois superiores e uma estagiária por sala. Esse era o comum. Uma das formas de demonstrar respeito entre os profissionais era não adentrar no gabinete uns dos outros. Conversas aconteciam nos corredores e reuniões em uma sala à parte. Cada gabinete era, contraditoriamente, portanto, um mundo privado com janelas de vidro. 

Mundo esse que eu vivia satisfatoriamente. Ao contrário do escritório do amigo do meu pai, aqui eu possuía a liberdade de acessar e organizar o que quisesse. Com respeito ao que não me pertencia e ao que não me competia, eu tratava o gabinete como uma extensão da minha vida, colocando tudo em seu devido lugar. Ordem significava excelência. E assim eu vivia o meu cotidiano.

Ao me ajeitar em minha mesa, iniciava meu dia de trabalho com a verificação de pendências por meio do login de um dos meus chefes. Para isso, retirava seu token – uma espécie de pen drive – da primeira gaveta de sua mesa, em uma caixinha escondida que havíamos combinado somente entre nós, afinal, era uma espécie de senha digital. Senha essa que requeria outra senha ao acessar o sistema propriamente dito. As burocracias do mundo institucional. 

As horas passavam rápido na maior parte dos dias. Me debruçava nos afazeres de tal forma, como ainda faço hoje, que não percebia o crepúsculo. A intensidade das luzes brancas aumentava conforme a noite chegava e somente então me dava conta de que restavam poucas pessoas no andar. Ao fim do expediente, encaminhava um e-mail para cada um dos superiores com as atualizações e pendências do dia; encerrava todos os sistemas; guardava o token; e me preparava para minha saída. Sozinha, mais uma vez, com o andar esvaziado e escuro. 

Por mais que a escuridão sempre tenha sido uma questão para mim, ali ela não se fazia um pensamento constante, pois meu foco era somente exercer minha função. Mas como em muitas situações na minha vida, quando olho para o passado vejo que, se fossem hoje, eu teria tido mais cuidado. E talvez mais medo também. Desacompanhada em um andar inteiro, quase que totalmente escuro. Praticamente sozinha em um prédio antigo de quase dez andares. 

Ao pressionar o apagador da minha sala, certa noite me guiei somente pela distante luz fixa que pairava sob a área dos elevadores. Confesso que apressei os passos e que cheguei a olhar para trás. Para o longo corredor escuro e já desocupado. Alguém teria ficado para trás? Algo me observava do escuro? Enquanto eu acelerava discretamente o caminhar, como se quisesse correr mas tivesse vergonha, eu me questionei: eu estou sozinha?

Caro leitor, a verdade é que eu não fui perseguida por uma assombração no meu trabalho. Esse acontecimento, o segundo de três em um curto período de tempo, foi muito mais sutil do que uma fuga de filme de terror. Foi discreto e me fez retomar um pensamento que já havia cruzado minha mente em outros momentos: eu estava louca? As sensações que o primeiro acontecimento me causaram ainda estavam presentes [leia o relato “Os três acontecimentos – Parte I” para saber mais]

Em plena luz do dia, iniciei minha impecável rotina de trabalho na manhã seguinte. As férias da faculdade me permitiram ir nesse horário, liberando-me do trânsito da parte da tarde. Naturalmente segui até a mesa de onde retiraria o token e me deparei com uma visão um tanto quanto estranha. Meus olhos, já reconhecidamente avantajados, se arregalaram para uma confusão de papéis jogados por toda a extensa mesa e uma diversidade de documentos sigilosos abertos na tela do computador, que exibia uma infinidade de abas abertas. O token… conectado. Acalmei-me com o seguinte pensamento: seu chefe está aqui e iniciou o trabalho, estando, provavelmente, em reunião numa sala diversa. Voltei à minha mesa e me apeguei a outros afazeres. 

Conforme encarava o relógio na tela do meu computador, os minutos que se sucediam pareciam lentos se comparados às inúmeras e aceleradas batidas do meu coração. A ansiedade havia chegado aos meus ombros, que se encolhiam enquanto eu me desconcentrava. Onde diabos estaria esse homem? Levantei-me de supetão e me dirigi ao setor administrativo. Enquanto passava apressadamente pelo corredor, levava os olhos aos demais gabinetes pelas divisórias de vidro na esperança de vê-lo conversando com algum colega. Seria incomum, mas quem sabe. Nada. O andar estava, inclusive, relativamente vazio.

Encontrei o supervisor administrativo em sua mesa como de costume e o questionei sobre a presença do meu chefe. A resposta foi negativa, ele não havia estado ali hoje. Insistentemente, refiz a pergunta, que teve o mesmo retorno. Alocado na primeira mesa após a saída do elevador e das escadas, o supervisor me informou que havia sido, como de praxe, o primeiro chegar e que tinha, inclusive, acendido todas as luzes dos corredores. Recolhi os ombros novamente e retornei ao meu espaço.

Os pensamentos formaram um trânsito intenso em minha mente e me senti desolada. Eu sabia que não estava dormindo bem desde o último acontecimento [leia o relato “Os três acontecimentos – Parte I” para saber mais], mas isso não seria capaz de me gerar tamanha confusão mental. Eu me recordava plenamente da noite anterior, havia feito a rotina de sempre. Me lembrava também do arrepio na espinha, de me sentir… observada através do escuro. De querer correr pelo corredor até chegar à luz dos elevadores. Mas nada disso fazia sentido.

Criei coragem e encaminhei uma mensagem ao meu chefe. Um “boa dia” educado seguido por uma indagação que tentei soar descontraída, perguntando onde ele estava e se havia ido ao gabinete hoje. “Estou no boxe”, foi a frase que me saltou aos olhos na resposta da mensagem. Ele não havia estado ali. Inclusive, não havia ido presencialmente há vários dias, como me relembrou. Eu sabia disso. Mesmo assim, esperava que ele tivesse ido resolver algo rapidamente e se esquecido de desconectar tudo e desligar o computador. 

Nada disso havia acontecido. Digitei, com receio, a minha resposta. Meu estágio estaria correndo risco? A ansiedade dominou minha mente, agora perturbada com a ideia de decepcionar um superior e de ser tida como descuidada. Eu seria uma irresponsável. Uma irresponsável desempregada. Com os dedos trêmulos e os olhos marejados, expliquei a situação e garanti que não havia deixado nada conectado na noite anterior. “Feche e desligue tudo”, foi a resposta inicial. 

As horas passavam até que ele chegou. Tranquilo como sempre, mas com um ar desconfiado, me cumprimentou e foi até sua mesa, olhando-a como um policial encararia uma cena de crime. Me chamou ao seu lado, sentou-se e puxou uma cadeira para mim. Enquanto a vontade era cavar um buraco no chão e ali permanecer, tentei ser profissional e me portar adequadamente. Ao ser perguntada, todavia, respondi de forma agitada que não sabia o que havia acontecido, que na noite anterior havia realizado o passo-a-passo de sempre, mas que, ao chegar hoje, tudo estava revirado. 

Mencionei ainda que não fazia sentido ter sido algo que eu havia feito. Se fosse, por que a tela do computador ainda estaria acesa?! A noite havia chegado e passado. O dia amanhecido. E a tela não teria bloqueado durante todas essas horas, como de costume?! E mesmo se alguém tivesse pegado o token, como saberia a senha? Seria possível checar nas câmeras? Cada vez mais ansiosa, sedenta por compreensão, hoje percebo que atropelava as palavras e demonstrava uma agitação que nunca havia evidenciado antes no trabalho. 

Disse que algo estranho havia acontecido e, para minha própria surpresa, mencionei que isso me soava misterioso e talvez sobrenatural. Eu não havia causado tudo isso e buscava uma justificativa, mas me arrependi amargamente no momento em que as palavras saíram da minha boca. Dar este tipo de explicação para a minha família poderia causar estranheza, mas em um ambiente profissional? Eu seria vista como louca. Eu estava louca?

Ele pressionou seus lábios um no outro e me encarando, notei um sentimento: pena. Disse que confiava em mim. Conversaria com o setor administrativo e com os responsáveis pela segurança para verificar o que poderia ter acontecido. Juntos alteramos todas as senhas e vi que meu emprego não estava perdido, mas talvez minha imagem tenha ficado um pouco comprometida? 

Eu nunca soube o que se sucedeu. Ele nunca retornou neste assunto e eu nunca perguntei. Naquele dia deixei minha sala olhando para os lados. Era como se a claridade, por mais contraditório que fosse, não me permitisse ver o que realmente estava ali. Somente no escuro eu enxergava de verdade. Ao sair do prédio encarei sua antiga fachada, bege e sem graça. Por mais que eu pudesse entender que o problema estava na edificação, talvez assombrada, tomei consciência: o problema era comigo.

Voltei para casa contendo as lágrimas. Para quem não tem muito na vida com que se apegar, como eu não tinha, sentir que poderia perder a única coisa de que se orgulhava era motivo de tristeza. Senti como se minha imagem tivesse sido maculada, ferida por algo que eu não sabia o que era. Em minha mente, soava como se tivessem arquitetado um elaborado plano para que eu fosse vista como louca. Queimei minha própria cadeira no meu próprio quarto [leia o relato “Os três acontecimentos – Parte I” para saber mais]. Fui irresponsável em meu trabalho e pus em risco documentos sigilosos de uma grande instituição. Eu não havia feito essas coisas. 

Chegando em casa, chorei. Um pouco revoltada, um pouco confusa. Por que eu estava passando por essas situações? Pequenas para alguns, mas estranhas a um nível passível de gerar mais do que um incômodo. Eu sabia que, como ser humano, eu era suscetível de erros. Mas não esse, não naquele local, não naquele dia. 

O problema era comigo não porque eu havia causado tudo isso, mas porque algo estava atrás de mim. Não era algo que existia no prédio, era algo que existia em mim. Eu atraí, de alguma forma, algum ser que queria me incomodar, que queria me ver confusa e duvidando da minha própria sanidade. Ele havia tentado com um móvel qualquer da minha casa. Agora ele havia tentado no meu trabalho. O que mais ele faria?

Continue acompanhando e verá!

Até breve, 

A Mulher da Pena Dourada


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