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    fevereiro 8th, 2026

    Acredito que eu tenha uma certa aversão a mudanças. Teimo em manter minha vida e tudo que a compõe “como sempre foi”. Alguns acontecimentos, entretanto, me forçaram – ou me ajudaram – a alcançar certa flexibilidade, mesmo que rasa e tímida. Se você acompanhou outros relatos, sabe que abandonei o meu quarto de infância e assumi outro entre os 17 ou 18 anos de idade.

    O antigo cômodo, hoje meu escritório, me remetia a um assombro escuro e inexplicável. O novo quarto, que nada mais era do que a pretérita sala de televisão pintada de rosa bebê, era minha chance de recomeçar. No primeiro, foi necessário sepultar minha infância. No segundo, pude plantar flores – mesmo que fossem de plástico. Depositei larga confiança nas paredes com cheiro de tinta. Imaginei uma redoma de vidro protetora ao redor do cômodo que, infelizmente – e previsivelmente – não zelou tanto assim por mim. 

    A partir de algum ponto, que sou incapaz de esclarecer qual, as minhas noites de sono no quarto rosa retornaram ao meu estágio infantil: eu mal dormia. Acordava insistentemente todas as noites. Assustada e taquicárdica, despertava pavorosamente sem saber onde estava. Sentia que minha consciência se delongava alguns milésimos de segundos até se conectar ao meu corpo. Até voltar ao meu corpo? Onde ela estava eu não sei, mas eu quando finalmente voltava a habitar a mim mesma, soltava o ar e percebia que estava em casa. 

    Mas isso não era um grande alívio. O relógio prateado e moderno que eu havia colocado na escrivaninha e que contrastava com os lustres dourados e antigos do quarto, não cumpria sua função: eu não o olhava, evitando verificar onde os ponteiros estariam. Se estivessem, a cada madrugada que se seguia, marcando três horas, eu teria certeza: era uma maldição. Por isso, passei a ignorar o horário do incômodo despertar que me atormentava e tentava destinar minha atenção para somente um objetivo: atrair o sono. Não funcionava. 

    Me sentia uma criança novamente quando percebia que retornava aos velhos hábitos que tanto faziam meu corpo e minha mente sofrerem. Encolhendo os ombros, petrificava todos os músculos no meu corpo, tornando-me um pequeno feto em meio ao cobertor que, independente do calor, deveria satisfazer a função de me envolver por inteiro. Era um muro protetor. Levava o grosso tecido até minha boca e nariz, cobrindo-os e fazendo com que a respiração se restringisse àquele casulo que eu havia criado. O ar quente circulava por aquele pequeno espaço e gerava um incômodo que, por proteção, eu ignorava. 

    Voltei a agir, instintivamente, como se algo me observasse. Se eu me mantivesse quieta, talvez ele acreditaria que estou dormindo, eu pensava. Era uma tola novamente. Tola ao ponto de não conseguir, por puro medo, esticar os braços para alcançar o celular que estava sobre minha escrivaninha. Se eu me movesse, ele me notaria ainda mais. Os ombros mais altos, mais encolhidos, mais rígidos e mais doloridos a cada dia. Não eram somente os hábitos visíveis que haviam retornado. Minha rotina mental também fez seu caminho de volta à infância.

    Em meio a tensão da madrugada, eu aguçava os ouvidos para notar minuciosamente todo e qualquer barulho que pudesse me circundar. Algum cachorro latia ao fundo e um galo cismava em cantar. O relógio do corredor, distante de mim somente por um porta fechada, fazia um tic-tac mais suave do que o do meu quarto, mas mesmo assim audível. A chuva, quando caía de leste a oeste, batia intensamente na janela que, por seus muitos anos de existência, deixava acumular, assim como hoje em dia, um pouco de água no peitoril interno. Quando os primeiros sinais da alvorada surgiam, a mente cansada me dava permissão para um cochilo que findaria pouco antes das cinco da manhã, hora que meu despertador tocava. 

    Os olhos pesados, quase que doloridos, e as intensas olheiras abaixo deles eram a primeira visão que eu tinha ao me olhar no espelho. Hoje percebo… eu era tão jovem e estava tão exausta. Sinto pena daquela garota. Aquela menina que se achava tão adulta, mas que sentia medos tão infantis. Olhava ao meu redor, verificando o quarto lentamente, e nada havia mudado. Ao abrir as cortinas e a janela, permitia que o sol e o tempo cumprissem seu papel e secassem a água acumulada durante os temporais da madrugada. A minha função, da mesma forma, era seguir o meu dia. 

    E assim eu fazia. Ignorava os tormentos da noite e lidava com o cansaço durante o dia. O desânimo ao sair de caso era reflexo disso. As notas de algumas disciplinas da faculdade exibiam as consequências do sono e da falta de concentração nos estudos. Lembro-me que a partir de determinado ponto, por mais estranho que isso fosse a mim, isso não me importava mais. Eu só queria dormir. Estava exausta e precisava descansar. Mas isso não aconteceria tão cedo.

    De repente, rompendo a madrugada, ele estava bem próximo ao meu rosto. Sua respiração se misturava com a minha como quando dois amantes dormem com os rostos de frente um ao outro. Mas eu não o amava. Eu sequer sabia quem ele era. Me observava de forma tão próxima e com tamanha intensidade que, com a consciência ainda voltando ao meu corpo, já me dava conta de que ele estava ali. Ousado. Mais perverso do que na minha infância. Um sopro mais forte no meu rosto. 

    Abri os olhos. 

    Nada. Eu não vi absolutamente nada. Ajustei a visão para o escuro e me dei conta de que estava no meu quarto. O meu tórax se movimentava em uma velocidade impressionante e consigo imaginar que as trevas das minhas pupilas haviam tomado todo o castanho dos meus olhos. Taquicárdica, me esqueci que devia me manter silenciosa e quieta; sentei na cama rapidamente e corri o olhar pelo quarto iluminado pela lua e reflexos dos postes acesos. Já há algumas semanas eu não dormia com a cortina totalmente fechada. A escuridão era demais. Naquela noite, em especial, a escuridão havia retornado. 

    Os lençois, marcados pelo suor, estavam desajeitados pelas marcas dos meus movimentos noturnos. Conversando mentalmente comigo mesma, me convenci de que havia sido um sonho. Um terrível pesadelo. O cansaço das noites anteriores estavam, provavelmente, me causando algum tipo de delírio noturno. Na tentativa de racionalizar, tentei ignorar o fato de que, como eu já sabia há algum tempo, o véu não era tão espesso para mim. O mundo espiritual me alcançava mais facilmente do que para outras pessoas. Que sorte a delas. 

    Chorando, rezei para conseguir dormir. 

    Cochilei até o céu exibir uma mistura distorcida de laranja com tons rosados. 

    Mais um dia, exausta. Cada vez mais impaciente, lembro-me de não conseguir sequer manter boas relações com as pessoas do meu convívio. Encontrava-me tão nervosa que a irritação exalava do meu ser e me fazia querer distância até de quem eu mais amava. Mas eu não poderia me dar a esse luxo. Em casa, sem minha irmã na cama ou no quarto ao lado, eu precisava de alguma companhia. Tentando regressar à minha personalidade naturalmente determinada, notifiquei aos meus pais que dormiria com eles algumas noites. Simples. Eu não pedi, eu avisei. Com uma leve expressão de deboche, meu pai riu e brincou que eu “levaria a assombração” até eles. Minha mãe, gentilmente ofereceu o quarto por quantas noites eu quisesse. 

    Ao escurecer, aquela moça de 20 e poucos anos, que hoje enxergo como uma menina, adentrou na porta do cômodo destinado ao casal e visualizou a cena que já estava acostumada. As paredes, pintadas de um amarelo claro após a reforma, eram decoradas com um lindo gesso branco que circundava todo o teto e dava destaque ao lustre dourado idêntico ao que iluminava quase todos os quartos. A cabeceira de cor amendoada exibia volutas decorativas e recortes horizontais próprios de uma época passada. Ao subir o olhar, um crucifixo fino e pesado que reforçava a lembrança de um sofrimento bem acima de tudo e todos. Talvez ele me protegesse.

    Do lado esquerdo, um armário grande exibia suas quatro portas de madeira que combinavam com o criado-mudo do pai, localizado daquele mesmo lado. Na parede oposta, a janela antiga e que já não vedava toda a brisa era distante somente alguns passos do criado-mudo da mãe e do seu lado da cama. Naquele espaço eu dormiria. Carreguei meu fino e deteriorado colchão à suíte, posicionando-o nesse lado direito do cômodo. 

    Satisfeita, ajeitei minha roupa de cama e me preparei para a noite que, eu tinha certeza, seria a mais bem dormida em muitos meses. Acho que apaguei. Sempre tive o hábito de dormir – ou tentar dormir, pelo menos – mais cedo do que todos da casa e naquela noite não foi diferente. Eu havia deitado bem antes dos meus pais e sequer me dei conta de quando eles se destinaram ao repouso noturno. Somente soube que haviam deitado quando… acordei de madrugada. 

    Diferentemente das demais noites, não acordei em meio ao desespero. Acordei, inclusive, de forma um tanto quanto suave. Mas algo não se encaixava. Ainda deitada, alguma sensação se esgueirava ao meu redor sem que eu a distinguisse perfeitamente. Como quando você sente alguém te olhando, sem saber exatamente de onde, e ao olhar para o lado, percebe que alguém te observava sim. Entendi. Era essa a sensação. 

    Deitada no chão do lado direito do quarto, senti que algo se aproximava, do outro lado da cama de casal, pela porta do lado esquerdo do cômodo. Como uma mãe que estica o pescoço para verificar silenciosamente se o bebê já adormeceu, percebi que alguém vinha suavemente em minha direção. Repentinamente e sem raciocinar, interrompi a branda aproximação do quer que fosse e me sentei bruscamente no colchão. Senti que interrompi algo. Levantei-me suavemente do meu berço improvisado e visualizei meus pais dormindo normalmente. Mais uma vez, não me arrisquei a checar as horas. 

    Não me recordo depois de quantos dias reuni coragem para retornar ao meu quarto, talvez dois ou três. Meus sentimentos, apesar de tudo, estavam mais tranquilos e eu havia, finalmente, recuperado um pouco do meu sono. Como isso fez diferença. Sem ele, eu dormia melhor. Como eu dormia melhor, ele não se sentia tão confortável a se aproximar de mim. Me parecia um ciclo confuso de tormentas, provavelmente causadas por medos de infância e estresse. Eram pesadelos, conclui. Eu acreditava, sim, no mundo espiritual que me circundava, mas, talvez, algumas coisas eram simplesmente… nada. Pensamentos. E não acontecimentos concretos.

    Acho que, acidentalmente, isso o desafiou.

    Certa noite, já no meu quarto, o “concreto” aconteceu. A sensação de um som veio como o rompante de um tambor cerimonial, daqueles que anunciam jogos macabros e arrancam o corpo do sonho. Mas não havia sonho. E meu corpo não foi arrancado. Somente a minha consciência. Naquela madrugada, apenas minha consciência despertou. 

    Os olhos não abriam, por mais força que eu empregasse. Sentia que as pálpebras tremiam e que minha íris se movimentava rapidamente de um lado para o outro, mas algo me forçava a manter as janelas de minh’alma fechadas. O corpo, em completa agonia, não se mexia. Deitada de barriga para cima, meus braços estavam com os cotovelos dobrados e guiavam minhas mãos, com as palmas voltadas para o teto, à altura das minhas orelhas. As tentativas de me movimentar eram frustradas e cada centímetro da minha pele estremecia como se minha força resultasse em um tremor por todo o tecido. Dessa vez, não somente os ombros estavam encolhidos e enrijecidos, mas cada músculo do meu ser. 

    Tentava falar e pedir socorro. Se conseguisse gritar, meus pais acordariam e viriam ao meu resgate. Como com os lábios costurados um no outro, não conseguia formar palavras ou sequer movimentar a língua. “MMMMMMMMM!” era o som que eu, pelo menos em minha mente, conseguia emitir. Provavelmente não muito alto, pois ninguém veio ao meu socorro.

    Em meio ao terror, algo pior quis se mostrar presente. Senti no rumo do meu umbigo e virilha como se alguém pesado sentasse por cima do meu frágil corpo. Sem qualquer piedade, a encorpada figura me afundava em minha própria cama, causando dor nos órgãos do meu tronco. Não bastasse isso, senti que segurava meus pulsos contra o travesseiro, forçando-os para baixo como se quisesse me submergir no colchão até ultrapassar as estruturas que formavam a base do móvel. “MMMMMMMMM!”, eu tentava gritar com os lábios prensados. 

    A dor era tamanha que sentia que queria chorar. 

    Mas não conseguia. Nem esse direito eu tinha.

    Como se em um ato final teatral, senti o que já me era familiar: um sopro quente e denso em meu rosto. “GHHÁÁÁÁÁÁÁÁÁ!” eu emiti em meio a um suspiro profundo, como se ressurgisse da água após uma tentativa de afogamento. Exausta, como se tivesse lutado pela minha própria vida, tentava recuperar o fôlego e me estabilizar. Sentada na cama, todo o meu corpo tremia e meus olhos iam de um lado para o outro sem, contudo, enxergar coisa alguma. O que havia sido aquilo? Não conseguia raciocinar, formar palavras ou me levantar. Passei a mão pela minha boca e vi que conseguia movimentar os lábios normalmente, por mais que a mandíbula doesse bastante. Tudo doía. Seriam três horas de manhã?

    Assustada, direcionei o sofrido corpo para um dos lados da cama sem conseguir formular pensamentos lineares. Os olhos cansados, com medo de se fecharem e não mais abrirem, continuaram esbugalhados por um tempo, encarando o nada. Naquela noite, não consegui rezar. O pavor e a dor eram tamanhos que entrei em um estado de exaustão profundo. Olhando hoje, confesso que não sei se dormi ou desmaiei. 

    Não sei onde os ponteiros estavam quando despertei naquela manhã de sábado. O céu já estava azul e iluminava boa parte do quarto dentre as cortinas entreabertas. Exausta, pensei “Que sonho terrível!”. A única explicação era essa: um sonho muito intenso, uma paralisia do sono gravíssima. Eu já havia ouvido falar sobre isso, tratava-se de um estranho descompasso entre o cérebro e o mecanismo de ativação dos músculos e acontecia, normalmente, nos primeiros minutos ao acordar. Eu não sabia explicar quando havia acontecido, mas eu sabia o que eu havia sentido.

    Mas… a paralisia do sono poderia deixar marcas reais? Físicas?

    Ao me levantar, notei que meus pés tocaram um espaço do piso diferente do que normalmente encostavam. Minha singela cama de solteiro estava arrastada em direção ao meio do quarto. A cabeceira se mantinha quase que no lugar de sempre, um pouco encostada junto à parede, mas o restante do móvel se direcionava ao espaço central do cômodo. Me distanciei para observar a cena que não conseguia explicar. Os lençois revirados por um pesadelo eram explicáveis, mas a cama? 

    Com os braços esticados ao lado do corpo e olhando em direção ao chão, notei algo a mais em mim mesma. Ambos os meus pulsos estavam avermelhados. Como se lesionados após um grande emprego de força, a parte da pele que ligava meus braços às minhas mãos trazia algo de muito real em tudo que havia acontecido. Eu estava machucada. Eu havia vivenciado a maior instância de assombro. Seja o que, ou quem for, ele me tocou. Eu já não era uma criança sendo somente observada enquanto dormia. Era uma adulta que podia ser ferida, mesmo que não soubesse como ou o porquê.

    Sem saber como reagir, arrastei a cama ao seu local de origem, pensando, enquanto isso, que aquilo não poderia ter sido feito por mim enquanto eu dormia – mesmo se eu estivesse em meio a um pesadelo. Móveis grandes não se moviam. Ou se moviam? Ao meu redor, tudo era real. O espiritual invadia minha vida terrena sem pedir licença. 

    Por mais que os meus pulsos tenham melhorado e a cama tenha se mantido no mesmo lugar onde a coloquei, algumas marcas, caro leitor, nunca vão embora. Essas fazem morada na mente. O antigo quarto rosa, que hoje deixo para os hóspedes, ainda foi meu lar particular por alguns anos depois desse acontecimento. Se aconteceu algo a mais? Sim. Mas isso eu deixo para o próximo relato. 

    Atenciosamente, 

    A Mulher da Pena Dourada

  • Os três acontecimentos – Parte III

    janeiro 25th, 2026

    Sempre fui obcecada por minha avó materna. Não me recordo em detalhes do meu avô materno, seu marido; e muito menos do paterno. Por mais que tenha convivido com minha avó paterna por muito mais tempo – ela foi a última a falecer -, era a materna que tinha a maior parte do meu coração. 

    Lembro-me de frequentar sua casa no interior e ser apaixonada por acompanhar toda sua vida [Leia o relato “A casa da avó” para saber mais]. Sentia que ela me deixava ser quem eu era e, em certa medida, até me estimulava, mesmo naquilo que ela não concordasse. Como era o caso das histórias. 

    Ela adorava me contar causos e eu amava ouvi-los. Por mais que essa dinâmica funcionasse, existiam limites. Certas perguntas não deviam ser feitas. Atrevida, mesmo assim eu questionava. E minha avó, quando entendia necessário, mantinha-se em silêncio. Alguns detalhes, se desenterrados, poderiam trazer sofrimento e, por isso, eram mantidos sob a terra, como um corpo em um caixão já sepultado. 

    Qual corpo era esse eu tive conhecimento somente mais tarde. Se você leu o relato “A casa da avó”, sabe a que me refiro. 

    O amor que tenho por aquela senhora magra, de cabelos brancos e óculos grandes me fez aprofundar em outros interesses que entendo serem intrínsecos a mim: a história. A trajetória da minha família, especialmente a materna, fez crescer em minh’alma um desejo afetuoso e, contraditoriamente, doentio, quase que dolorido, de compreender mais sobre o passado de quem me deu origem.

    Não me refiro somente à origem direta, isto é, meus genitores. Por mais interessante que sejam, ao que parece, meu ser almeja por algo mais profundo. Por pessoas que não estão mais entre nós e que se foram com algo que ainda precisa ser dito. Acredito que sou a pessoa escolhida para falar por eles. Sou o resultado de gerações e gerações de mulheres que não puderam se posicionar, que foram impedidas de escolher suas vidas. Por isso, escolhi escrever.

    Escrevo aquilo que chamo de “O Inventário”. A história da minha família está sendo redigida já há muitos anos, pouco a pouco, com base em documentos históricos, fotografias antigas e relatos orais de todos aqueles que apoiam minha jornada. Por mais que o contexto geral seja o mesmo, as experiências pessoais divergem em pontos sensíveis. Amores e rancores. Laços e inimizades. Todas as experiências em uma só família. 

    Busco escrever com certa imparcialidade. Exibir datas e acontecimentos de forma direta e transparente. As fotografias, por mais que poucas, são chocantes. Como posso parecer tanto com uma mulher, minha bisavó, que nasceu em 1888? Sei que a genética explica esse fato. Mas como posso me sentir tão conectada com alguém que sequer conheci? Será que somos parecidas em nossas personalidades também? Acho que nunca saberei. 

    Seguindo toda a curiosidade que habita o meu ser desde que me entendo como ser humano, coleto tudo que minha família tem sobre as pessoas do meu interesse. Trato como tesouros tudo aquilo que me é entregue, seja uma fotografia, um objeto pessoal ou um relato que ressoa em minha mente como uma música. Por saberem do meu amor por tudo isso, todos depositam sua confiança em mim. Confiam que relatarei as experiências com respeito. Creem que cuidarei de tudo que me é trazido como se fosse meu. 

    E assim eu faço. Eu juro que faço. 

    Tento armazenar devidamente tudo que todos possuem sobre nossos antepassados. A grande guardiã sempre foi minha mãe. Herdei dela esse cuidado com o passado. A maior parte das fotografias, dos documentos e até do conhecimento sobre as linhagens, permanecia com ela. Eu fui a criança curiosa que ela também foi. Por valorizar tanto essa fatia de nossa história, ela mantém tudo sob sua guarda. Meu objetivo nunca foi, portanto, tomar para mim esses objetos. Até porque, eu já sabia que os herdaria. No momento, buscava fotografá-los, digitalizá-los e manter cópias. 

    Na mesma época do meu estágio [leia “Os três acontecimentos – Parte II” para saber mais], solicitei à minha mãe as fotos mais antigas que ela possuísse de seus pais. Em determinada noite, ela buscou uma pasta antiga e verde, que por pouco não poderia ser fechada, e me mostrou. Em meio a dezenas de documentos, haviam duas fotos particularmente atraentes aos meus olhos. Uma de meu avô e outra de minha avó, ambos bem jovens, talvez em seus dezoito ou vinte anos. As imagens, ainda em preto e branco, remontavam a uma época em que as mulheres usavam vestidos e pérolas; em que os homens usavam ternos independentemente do propósito e exibiam sua masculinidade por bigodes grossos e muito bem aparados. Simplesmente porque era o ideal. Para mim, era tudo magnífico. 

    Em meio a tantas outras coisas, dei graças aos céus por ter a ideia de digitalizar tudo. Por mais valorosos que os itens fossem para minha mãe, ela os dispensava somente os cuidados que estavam ao seu alcance. No momento, era manter as fotografias em uma pasta, cujos elásticos quase arrebentavam pelo volume de itens armazenados. Com minha natural soberba, pensei que eu cuidaria melhor de tudo aquilo. Por isso, separei as fotografias e coloquei-as em um envelope pardo. Utilizaria o scanner da impressora do trabalho para digitalizá-las e as devolveria. Simples.

    Organizada como sempre fui, inclui essa tarefa em uma lista cuidadosamente escrita à mão e coloquei o envelope junto a outros papeis que representavam outras pendências: xerox de capítulos de livros que precisava ler, um documento impresso do trabalho que requeria minha análise. O envelope embaixo, visto que maior, e os demais por cima. Todos do lado direito da minha escrivaninha branca. [Leia o relato “Os três acontecimentos – Parte I” para saber mais sobre esse espaço].

    Os dias se passaram e as demandas surgiam e eram cumpridas. Urgências passavam a ocupar o topo da lista de afazeres enquanto as demais pendências aguardavam seu momento de execução. Lembro-me de levar o envelope para o trabalho e sequer ter tempo de digitalizá-lo. Naquela tarde, inclusive, passei na farmácia, que localizava-se a poucos metros do prédio institucional e recordo-me de olhar frustrada para ele, junto aos meus demais pertences, enquanto a atendente finalizava os meus itens. “Como não consegui fazer isso ainda?!”. 

    Paguei e corri para o ponto de ônibus. Já estava atrasada e chegaria em casa com o sol já caindo. Quando isso acontecia, descia a rua correndo, com a mochila batendo nas costas e com as mãos ocupadas. Livros, tablet, papéis, marmita e o pote de brigadeiros que vendia na faculdade. Sabia que o dia havia sido bom quando a mochila estava mais vazia. Isso significava que havia vendido todos os doces e que, por isso, a carga estava mais leve – literalmente. Não me recordo de nada sobre isso, somente que queria chegar em casa logo. E cheguei. 

    Por mais exausta que estivesse, tinha como prioridade organizar tudo que me competia antes de descansar, inclusive atualizar a lista de pendências para o dia seguinte. A digitalização permanecia ali. Por mais simples que fosse, ao notar que não conseguiria concretizar isso tão cedo, retornei o envelope ao seu local de espera e continuei meu ritual noturno.

    Os dias passaram. 

    Os afazeres acalmaram.

    Já de férias da faculdade, teve início também o recesso forense. Finalmente posso ter uma pausa nos afazeres estudantis e do estágio e dar prosseguimento ao restante da minha vida que, até aquele momento, estava conturbada com inúmeras pendências e tensa com os últimos acontecimentos [Leia Os três acontecimentos – Parte I e II]. Poderia, então, me dedicar ao que me preenchia de dentro para fora: a história da minha família.

    Havia uma papelaria relativamente perto da minha casa, bastava que eu descesse algumas ruas e poderia finalmente digitalizar as fotografias que tanto ansiava. Em determinado dia, me arrumei e calcei uma sapatilha vermelha com um laço em cada ponta. Que meiga. Separei o dinheiro, algumas moedas bastariam. Coloquei-as em uma bolsinha preta de treliça que ganhei em uma prenda na festa junina. Ao chegar diante da minha escrivaninha… onde estava o envelope pardo? 

    Corri os olhos em tudo que estava sobre minha mesa. Poucos itens. O envelope não estava em qualquer lugar. Embaixo da escrivaninha, atrás dela, nada. Embaixo da cama, nada. Senti como se meu coração pulsasse na minha garganta e, como de costume, recolhi os ombros quase que junto às orelhas. O quarto feminino, com as paredes pintadas em um rosa bebê, não combinava com a desconfiança e tensão que eu exalava.

    Tentando me acalmar sozinha, pensei que o óbvio seria que o item estivesse na minha bolsa de faculdade. Seria estranho, visto que a esvaziei quando o semestre acabou, mas… Em um ato bruto, abri a porta do armário e peguei-a. Com somente um terço pequeno de cor bordô no bolso interno e alguns medicamentos, a bolsa se provou inútil ao meu propósito. Não estava ali. 

    Revirei o quarto. Abri todas as gavetas, passei por todos os cabides. Insana, olhei em meio às roupas íntimas. Vai saber! Com as lágrimas contidas nos olhos, vistoriava os locais incessantemente. Meu quarto era pequeno. Uma escrivaninha, uma cama, um guarda roupa de duas portas, uma prateleira com livros – os quais eu folheei também. Nada. 

    Não era do meu costume manter meus objetos pessoais em outros locais da residência. A casa não era minha, somente meu quarto. Mesmo assim, andei por todos os cômodos em agonia e com os olhos atentos a qualquer coisa que se parecesse um envelope pardo. Meus pais nunca foram pessoas organizadas. Mesmo assim, busquei nos locais mais prováveis e nada. 

    Eu havia deixado o envelope no trabalho? Lembro-me do último dia. Eu estava com ele. Mas passei na farmácia. Havia deixado no balcão? Mas eu estava com ele no ônibus. Esqueci no banco em que me sentei? Mas eu o coloquei na escrivaninha. Meu Deus. Aconteceu novamente. Em um misto de medo, tristeza e ódio, me joguei na cama e cobri o rosto com os braços. Chorei. 

    Chorei como se tivessem arrancado algum dos meus órgãos. Como se sentisse dor física.

    Talvez, muito talvez, minha mãe tivesse pego o envelope. Não era de seu feitio entrar em meu quarto e mexer em minhas coisas. Sistemática, eu havia estabelecido limites claros sobre o único espaço que podia chamar de “meu” na casa. Mesmo assim, ainda havia a chance. Enxuguei o rosto rapidamente e em questão de segundos cheguei até minha mãe e a questionei. Intimamente, acho que rezei para que ela tivesse invadido minha privacidade.

    “Eu não!”. 

    Pronto, era o início da guerra. 

    As frases saíram atropeladas, o tom de voz variava e deu-se início à correria. Direcionando-se até meu quarto, ela dizia que não seria possível que as fotos tivessem simplesmente sumido. Fotos não somem. “Ah, mas você vai achar!”. Quem cresceu com qualquer figura materna sabe com que tom de voz essa fala foi dita. Expliquei para ela que eu já havia procurado em todos os locais. Sabia que não as havia deixado no trabalho e não estavam no meu quarto. 

    A saga começou. Reviramos tudo. Todas as gavetas e prateleiras da casa. Atrás de todos os móveis. Reparei nos olhos tristes de minha mãe enquanto ela buscava um tesouro que talvez poucos compreendam a importância. Com um nó na garganta e peso na consciência, eu procurava minuciosamente pelo envelope e pelas fotos esparsas em locais que elas sequer caberiam. 

    Eu as havia perdido. Mesmo com minha irmã em minha defesa, minha mãe me olhava como se estivesse diante de uma assassina. “A senhora sabe do cuidado que ela tem com isso, mãe! Ela não teria simplesmente perdido as fotos”. Não adiantava, a tristeza era tamanha que se converteu em raiva. 

    Ele havia ganhado. 

    Já à noite no meu quarto, senti que não estava sozinha. A janela aberta não era suficiente para que a brisa entrasse, parecia que o tempo havia parado. Apesar de estar na capital, as sensações da casa da minha avó no interior me dominavam. Olhos sobre mim. Um tumulto de pessoas. Sem que eu visse ninguém. Uma confusão de seres. Adormeci às lágrimas. 

    Acordei e visualizei, pelos olhos inchados de chorar, o lustre dourado e antigo do meu quarto. Gosto do passado e o passado gosta de mim. Por isso, tentando me conectar com meus antepassados, tentei me provar uma mulher do bem. Disse em voz alta que não usaria as fotografias para fins maliciosos, que queria somente contar a história da família, a nossa história. Eu sei que me ouviram. Mas por alguma razão que não entendo, nunca me responderam. Eu sei que sabem das minhas boas intenções. Não sabem?

    Os dias, as semanas e os meses passaram. 

    Caro leitor, eu não perdi as fotografias. Elas foram tiradas de mim. Parte da memória da minha árvore genealógica foi subitamente arrancada de quem mais se importava com ela. As fotografias não se perderam. Alguém decidiu que eu não devia mais tê-las. Algum antepassado não queria esse cuidado com a nossa história familiar? Ofende-se com minha curiosidade? Tem receio que, continuando a coletar fotografias e documentos, eu encontre algo indesejado? Ou só queria me enlouquecer? 

    Ainda não encontrei essas respostas. Mas independentemente dessa perda, continuo a escrever a história da minha família. O capítulo dos meus avós maternos está em andamento. Escrevo sobre como minha avó perdeu a mãe cedo, em circunstâncias trágicas; sobre como se casou com meu avô por convenção social e não pôde estudar. Escrevo porque acredito que isso pode ser capaz de fechar feridas. Ao mesmo tempo, acho que algo me ronda porque eu escrevo. Já incluí fotografias, mas não aquelas. Eu nunca mais as vi.

    Até breve, 

    A Mulher da Pena Dourada

  • Os três acontecimentos – Parte II

    novembro 22nd, 2025

    Confesso que tenho uma ética de trabalho perturbadora.

    O que seria um elogio, evidencia em mim uma necessidade de aprovação intelectual e profissional que esmagaria qualquer pessoa. Esse traço vem da infância. Aprendi com meu pai a acordar cedo todos os dias e a respeitar as autoridades. Aprendi com minha mãe a cumprir rigorosamente tarefas estudantis e somente depois brincar.

    Enquanto algumas amigas faziam aulas de inglês, balé ou piano, eu acompanhava meu pai no trabalho com certa frequência. Lembro-me de ficar bastante no escritório de um de seus amigos, que exercia seu ofício na sala ao lado e me recebia como uma sobrinha aprendiz. Ao passo que meu pai atuava na área da saúde, o colega era um intelectual que desempenhava sua função em um cômodo um tanto quanto escuro, com infindáveis papéis e livros espalhados. 

    Apesar do incômodo gerado pela bagunça, a ambiência misteriosa e silenciosa me atraíam. Gostava da ideia de, ao passar pela ante-sala, encontrar uma penumbra com cheiro de história. Ao entrar pelo escritório, a parede ao lado da porta era preenchida por uma estante recheada de livros, a maioria de grossura considerável e com capas de couro. Enormes coleções de alguém que vivia para aquilo.

    Sua mesa de trabalho era iluminada somente por um abajur que emitia uma luz em tom de âmbar. Uma máquina de datilografar, canetas requintadas, agendas e muitos documentos que eu não entendia o que diziam. Ele passava horas a fio trabalhando, sem sequer se levantar. Outra pessoa bastante rigorosa. A minha mesa, que me colocava de costas para ele, era menor e majoritariamente clareada pela luz que advinha do corredor do edifício, já que ele mantinha todas as portas abertas quando eu estava no recinto. 

    Eu também tinha direito a uma máquina de datilografar e ali o tempo passava sem que eu notasse. O que eu escrevia eu não me lembro, mas gostava da ideia de preencher uma folha de papel inteira e, ao final, carimbar e assinar. No meu caso, utilizava o carimbo dele e rabiscava por cima, com o que seria minha “rubrica”. Confesso que não me recordo muito do restante do cômodo, que ficava escuro mas que, por alguma razão, não me incomodava como em outros locais.

    Ali eu me sentia bem, como se abraçada por uma atmosfera profissional que era aconchegante o suficiente para me enfeitiçar. Achava que isso era pertencer ao mundo forense e segui o mesmo caminho. Hoje vejo que meu gosto era mais por estar dedicada a algo, quieta, escrevendo, preferências essas que assumi depois de adulta. Assumi também que gosto de ambientes misteriosos, como se algo estivesse sendo dito mesmo que tudo estivesse em silêncio.

    A convivência regular com pessoas mais velhas rigorosas com suas profissões me construiu como uma adulta proeminente no intelecto e na seara profissional. Mas esses pontos também me forjaram uma pessoa um tanto quanto rígida e séria no trabalho e nos estudos, afinal, eles vinham em primeiro lugar. Durante a faculdade, portanto, o estágio nunca foi para mim uma mera etapa do curso. Era um espaço de seriedade e cumprimento de metas. Era um trabalho, de fato.

    Minha personalidade focada me destacou perante meus superiores hierárquicos. A garota responsável e dedicada que tinha o trabalho e os estudos como prioridade. E de fato tinha. Seguia uma rotina rigorosa. Cumpria tantas tarefas que chegava a ser deixada sozinha no gabinete para lidar o que quer que surgisse. Sozinha, às vezes, até após o cair do sol, quando as luzes de todas as salas iam se apagando uma a uma, até somente restar a minha. 

    Acostumei-me com essa ideia e com ter a sala quase que sempre para mim. Minha mesa era minha. Com as minhas coisas. Ao que parece, isso era – e ainda é – importante para mim em qualquer ambiente. O ritual era o mesmo: ao sair do elevador no sexto andar, cumprimentava o setor administrativo, dobrava uma esquina e seguia para o longo corredor de gabinetes que ficavam à esquerda. Do início já avistava, pelas sucessivas divisórias de vidro, o que era o meu destino. 

    Ao chegar, abria a porta e me dirigia para a minha mesa, a primeira à direita, cuja tela do computador ficava visível para qualquer um que passasse por ali. Como estagiária, era entendido que eu poderia ser vigiada se fosse necessário. No caso dos meus superiores, suas mesas ficavam de frente para a minha, com as telas dos computadores para o fundo do cômodo, sem que pudessem ser vistas por qualquer um que passasse. 

    De qualquer forma, nada precisava ser escondido, pois não era comum o trânsito de pessoas entre os gabinetes. Somente dois superiores e uma estagiária por sala. Esse era o comum. Uma das formas de demonstrar respeito entre os profissionais era não adentrar no gabinete uns dos outros. Conversas aconteciam nos corredores e reuniões em uma sala à parte. Cada gabinete era, contraditoriamente, portanto, um mundo privado com janelas de vidro. 

    Mundo esse que eu vivia satisfatoriamente. Ao contrário do escritório do amigo do meu pai, aqui eu possuía a liberdade de acessar e organizar o que quisesse. Com respeito ao que não me pertencia e ao que não me competia, eu tratava o gabinete como uma extensão da minha vida, colocando tudo em seu devido lugar. Ordem significava excelência. E assim eu vivia o meu cotidiano.

    Ao me ajeitar em minha mesa, iniciava meu dia de trabalho com a verificação de pendências por meio do login de um dos meus chefes. Para isso, retirava seu token – uma espécie de pen drive – da primeira gaveta de sua mesa, em uma caixinha escondida que havíamos combinado somente entre nós, afinal, era uma espécie de senha digital. Senha essa que requeria outra senha ao acessar o sistema propriamente dito. As burocracias do mundo institucional. 

    As horas passavam rápido na maior parte dos dias. Me debruçava nos afazeres de tal forma, como ainda faço hoje, que não percebia o crepúsculo. A intensidade das luzes brancas aumentava conforme a noite chegava e somente então me dava conta de que restavam poucas pessoas no andar. Ao fim do expediente, encaminhava um e-mail para cada um dos superiores com as atualizações e pendências do dia; encerrava todos os sistemas; guardava o token; e me preparava para minha saída. Sozinha, mais uma vez, com o andar esvaziado e escuro. 

    Por mais que a escuridão sempre tenha sido uma questão para mim, ali ela não se fazia um pensamento constante, pois meu foco era somente exercer minha função. Mas como em muitas situações na minha vida, quando olho para o passado vejo que, se fossem hoje, eu teria tido mais cuidado. E talvez mais medo também. Desacompanhada em um andar inteiro, quase que totalmente escuro. Praticamente sozinha em um prédio antigo de quase dez andares. 

    Ao pressionar o apagador da minha sala, certa noite me guiei somente pela distante luz fixa que pairava sob a área dos elevadores. Confesso que apressei os passos e que cheguei a olhar para trás. Para o longo corredor escuro e já desocupado. Alguém teria ficado para trás? Algo me observava do escuro? Enquanto eu acelerava discretamente o caminhar, como se quisesse correr mas tivesse vergonha, eu me questionei: eu estou sozinha?

    Caro leitor, a verdade é que eu não fui perseguida por uma assombração no meu trabalho. Esse acontecimento, o segundo de três em um curto período de tempo, foi muito mais sutil do que uma fuga de filme de terror. Foi discreto e me fez retomar um pensamento que já havia cruzado minha mente em outros momentos: eu estava louca? As sensações que o primeiro acontecimento me causaram ainda estavam presentes [leia o relato “Os três acontecimentos – Parte I” para saber mais]. 

    Em plena luz do dia, iniciei minha impecável rotina de trabalho na manhã seguinte. As férias da faculdade me permitiram ir nesse horário, liberando-me do trânsito da parte da tarde. Naturalmente segui até a mesa de onde retiraria o token e me deparei com uma visão um tanto quanto estranha. Meus olhos, já reconhecidamente avantajados, se arregalaram para uma confusão de papéis jogados por toda a extensa mesa e uma diversidade de documentos sigilosos abertos na tela do computador, que exibia uma infinidade de abas abertas. O token… conectado. Acalmei-me com o seguinte pensamento: seu chefe está aqui e iniciou o trabalho, estando, provavelmente, em reunião numa sala diversa. Voltei à minha mesa e me apeguei a outros afazeres. 

    Conforme encarava o relógio na tela do meu computador, os minutos que se sucediam pareciam lentos se comparados às inúmeras e aceleradas batidas do meu coração. A ansiedade havia chegado aos meus ombros, que se encolhiam enquanto eu me desconcentrava. Onde diabos estaria esse homem? Levantei-me de supetão e me dirigi ao setor administrativo. Enquanto passava apressadamente pelo corredor, levava os olhos aos demais gabinetes pelas divisórias de vidro na esperança de vê-lo conversando com algum colega. Seria incomum, mas quem sabe. Nada. O andar estava, inclusive, relativamente vazio.

    Encontrei o supervisor administrativo em sua mesa como de costume e o questionei sobre a presença do meu chefe. A resposta foi negativa, ele não havia estado ali hoje. Insistentemente, refiz a pergunta, que teve o mesmo retorno. Alocado na primeira mesa após a saída do elevador e das escadas, o supervisor me informou que havia sido, como de praxe, o primeiro chegar e que tinha, inclusive, acendido todas as luzes dos corredores. Recolhi os ombros novamente e retornei ao meu espaço.

    Os pensamentos formaram um trânsito intenso em minha mente e me senti desolada. Eu sabia que não estava dormindo bem desde o último acontecimento [leia o relato “Os três acontecimentos – Parte I” para saber mais], mas isso não seria capaz de me gerar tamanha confusão mental. Eu me recordava plenamente da noite anterior, havia feito a rotina de sempre. Me lembrava também do arrepio na espinha, de me sentir… observada através do escuro. De querer correr pelo corredor até chegar à luz dos elevadores. Mas nada disso fazia sentido.

    Criei coragem e encaminhei uma mensagem ao meu chefe. Um “boa dia” educado seguido por uma indagação que tentei soar descontraída, perguntando onde ele estava e se havia ido ao gabinete hoje. “Estou no boxe”, foi a frase que me saltou aos olhos na resposta da mensagem. Ele não havia estado ali. Inclusive, não havia ido presencialmente há vários dias, como me relembrou. Eu sabia disso. Mesmo assim, esperava que ele tivesse ido resolver algo rapidamente e se esquecido de desconectar tudo e desligar o computador. 

    Nada disso havia acontecido. Digitei, com receio, a minha resposta. Meu estágio estaria correndo risco? A ansiedade dominou minha mente, agora perturbada com a ideia de decepcionar um superior e de ser tida como descuidada. Eu seria uma irresponsável. Uma irresponsável desempregada. Com os dedos trêmulos e os olhos marejados, expliquei a situação e garanti que não havia deixado nada conectado na noite anterior. “Feche e desligue tudo”, foi a resposta inicial. 

    As horas passavam até que ele chegou. Tranquilo como sempre, mas com um ar desconfiado, me cumprimentou e foi até sua mesa, olhando-a como um policial encararia uma cena de crime. Me chamou ao seu lado, sentou-se e puxou uma cadeira para mim. Enquanto a vontade era cavar um buraco no chão e ali permanecer, tentei ser profissional e me portar adequadamente. Ao ser perguntada, todavia, respondi de forma agitada que não sabia o que havia acontecido, que na noite anterior havia realizado o passo-a-passo de sempre, mas que, ao chegar hoje, tudo estava revirado. 

    Mencionei ainda que não fazia sentido ter sido algo que eu havia feito. Se fosse, por que a tela do computador ainda estaria acesa?! A noite havia chegado e passado. O dia amanhecido. E a tela não teria bloqueado durante todas essas horas, como de costume?! E mesmo se alguém tivesse pegado o token, como saberia a senha? Seria possível checar nas câmeras? Cada vez mais ansiosa, sedenta por compreensão, hoje percebo que atropelava as palavras e demonstrava uma agitação que nunca havia evidenciado antes no trabalho. 

    Disse que algo estranho havia acontecido e, para minha própria surpresa, mencionei que isso me soava misterioso e talvez sobrenatural. Eu não havia causado tudo isso e buscava uma justificativa, mas me arrependi amargamente no momento em que as palavras saíram da minha boca. Dar este tipo de explicação para a minha família poderia causar estranheza, mas em um ambiente profissional? Eu seria vista como louca. Eu estava louca?

    Ele pressionou seus lábios um no outro e me encarando, notei um sentimento: pena. Disse que confiava em mim. Conversaria com o setor administrativo e com os responsáveis pela segurança para verificar o que poderia ter acontecido. Juntos alteramos todas as senhas e vi que meu emprego não estava perdido, mas talvez minha imagem tenha ficado um pouco comprometida? 

    Eu nunca soube o que se sucedeu. Ele nunca retornou neste assunto e eu nunca perguntei. Naquele dia deixei minha sala olhando para os lados. Era como se a claridade, por mais contraditório que fosse, não me permitisse ver o que realmente estava ali. Somente no escuro eu enxergava de verdade. Ao sair do prédio encarei sua antiga fachada, bege e sem graça. Por mais que eu pudesse entender que o problema estava na edificação, talvez assombrada, tomei consciência: o problema era comigo.

    Voltei para casa contendo as lágrimas. Para quem não tem muito na vida com que se apegar, como eu não tinha, sentir que poderia perder a única coisa de que se orgulhava era motivo de tristeza. Senti como se minha imagem tivesse sido maculada, ferida por algo que eu não sabia o que era. Em minha mente, soava como se tivessem arquitetado um elaborado plano para que eu fosse vista como louca. Queimei minha própria cadeira no meu próprio quarto [leia o relato “Os três acontecimentos – Parte I” para saber mais]. Fui irresponsável em meu trabalho e pus em risco documentos sigilosos de uma grande instituição. Eu não havia feito essas coisas. 

    Chegando em casa, chorei. Um pouco revoltada, um pouco confusa. Por que eu estava passando por essas situações? Pequenas para alguns, mas estranhas a um nível passível de gerar mais do que um incômodo. Eu sabia que, como ser humano, eu era suscetível de erros. Mas não esse, não naquele local, não naquele dia. 

    O problema era comigo não porque eu havia causado tudo isso, mas porque algo estava atrás de mim. Não era algo que existia no prédio, era algo que existia em mim. Eu atraí, de alguma forma, algum ser que queria me incomodar, que queria me ver confusa e duvidando da minha própria sanidade. Ele havia tentado com um móvel qualquer da minha casa. Agora ele havia tentado no meu trabalho. O que mais ele faria?

    Continue acompanhando e verá!

    Até breve, 

    A Mulher da Pena Dourada

  • Os três acontecimentos – Parte I

    julho 21st, 2025

    Por muito tempo, achei que fosse louca. 

    Quando em crescimento, a falta de confiança dos adultos nos meus dizeres me podou. Crianças não sabiam de nada. Eu acreditei nisso. Diferentemente das meninas da minha época, vivi experiências que me fizeram duvidar de mim mesma. Possuía amigas, sim. Boas e compreensivas amigas, inclusive. Mas nunca me senti plenamente encaixada em lugar algum. Acreditava que o que eu vivia era incompartilhável. Você já se sentiu assim?

    No dia-a-dia da capital, eu sonhava com o interior e com tudo que ele me proporcionava. Queria partilhar minhas vivências, mas faltava-me coragem para me expor. A poda havia funcionado. Quando no interior, era a menina da cidade grande. Influenciada pela modernidade e, por isso, um tanto quanto delirante e até inconveniente. Em ambos, a jovem que guardava para si o que via e sentia. 

    Demorei anos para falar a respeito do que vivia [leia o relato “O Visitante” para saber mais]. Ao me expressar, senti-me vista. Às vezes como esquisita. Às vezes como uma curiosidade. Pelo menos não precisava mais me esconder.

    Ao que parece, nem eles. 

    Conforme me mostrei ao mundo, acho que os seres que me acompanham se sentiram mais confortáveis a se apresentarem também. Ainda para mim especialmente, mas também com repercussões externas e visualizáveis para aqueles poucos que conviviam comigo.

    Meu círculo de convivência não mudou tanto ao longo dos anos. Em casa, os pais idosos já ocupavam boa parte dos meus pensamentos e preocupações. Com a irmã mais velha estudando em outra cidade, eu era a responsável. Nas amizades, hoje vejo que por mais simpática e sociável que tente ser, embolo-me nas relações e acabo com poucas. Mantive algumas amigas de infância e outros coleguismos.

    Por mais que goste de certa estabilidade, fiz questão de mudar certos aspectos da minha vida. Não me mantive no quarto de infância. Abandonei-o com a suposição de que abandonaria também tudo que ali aconteceu. Assim como acreditava que os cobertores me protegiam dos espíritos, confiava que as paredes me separariam deles. O novo quarto era meu. Finalmente, alguma individualidade. Hoje percebo que vivi o início da vida adulta compensando as faltas que senti na infância. 

    A prova disso eram as paredes pintadas de rosa claro e a escrivaninha branca que combinava com a cortina de mesma tonalidade. Quando aberta, o sol iluminava a pequena prateleira com os poucos livros que possuía. Detalhes que representavam traços de uma personalidade que até hoje descubro. Agora sem correntes nas janelas, podia abri-las livremente para que o ar circulasse pelo apartamento já reformado. 

    Alguns detalhes foram mantidos, claro. O armário de madeira ainda perdurou por mais alguns anos. O lustre antigo e dourado até hoje mantenho como antiguidade e lembrança de tempos que não retornam. Outros detalhes foram adicionados, por mais que nem sempre da forma que eu sonhava. Junto à escrivaninha, uma cadeira tradicional azul e preta, por mais enfadonha que fosse, era o que me permitia estudar horas a fio.

    Por mais pueril que fosse meu ambiente íntimo, do lado de fora, portava-me como adulta. À tarde, após a faculdade, o estágio me ocupava com seus infindáveis papéis e demandas. Sentia-me bem em ambientes formais e intelectuais e ali permaneci por muitos semestres aprendendo com dois superiores. 

    Em determinada sexta-feira, concentrada em meus afazeres e buscando finalizar uma lista de procedimentos, fui interrompida por uma mensagem no celular: “O que você fez com sua cadeira?!”. Ciente de que minha irmã regressaria para o final de semana, imaginei que havia chegado mais cedo em casa e entrado em meu quarto por qualquer razão. O que essa mensagem queria dizer? Telefonei rapidamente para ela e questionei. “Você vai ver!”, ela respondeu. Minha mãe, ao fundo, parecia agitada. Franzi a testa em estranhamento, mas desliguei. Um exagero, imaginei.

    Ao atingir o horário final, já sozinha na sala de trabalho, desliguei o computador e retirei-me. Ainda estava claro, que sorte! Sentia-me mais segura assim. Chegaria cedo em casa e poderia conversar com minha irmã, descansar, enfim. Pego o ônibus e reflito sobre a cadeira… O que ela quis dizer? Parecia nervosa. Logo o pensamento passou. Assim como o tempo. Saí do coletivo e desci a rua, rumo ao lar. Passei normalmente pelo portão principal e pelo segundo portão. Ao destrancar a porta do apartamento, visualizo minha mãe e minha irmã com os olhos arregalados e feições nervosas. “O que você fez?!”, questionaram. 

    Instintivamente, como um traço familiar responsivo, arregalei os olhos em retorno e devolvi o questionamento: “O que, gente?!”. Já nervosa, adentrei pelo apartamento em direção ao quarto. Reagiam como se a cadeira fosse feita de ouro e tivesse sido destruída. O que de tão ruim poderia acontecer com uma cadeira? Sempre tive consciência dos obstáculos financeiros enfrentados pela minha família, mas uma cadeira seria assim tão difícil de substituir? É possível que algo muito desagradável pudesse atingir um objeto tão… comum?! 

    Sim, é possível. 

    Ao adentrar no cômodo, as cortinas fechadas obstruíam a passagem da luz, que remanescia somente por debaixo dos tecidos, levemente esvoaçantes por uma suave brisa que ainda passava pelas frestas das antigas janelas. A cama meticulosamente ordenada, assim como eu deixava todas as manhãs ao sair para minha rotina de estudante e estagiária. Os livros na prateleira, devidamente organizados por tamanho. A escrivaninha, com minhas flores de plástico rosadas e um pequeno espelho de mesa prateado, abrigava embaixo a dita cadeira que, destoante de toda a estética feminina do cômodo, puxei para visualizar.

    “Vruuuc” as rodinhas pretas fizeram pelo liso chão de porcelanato que escolhemos durante a reforma. O assento acolchoado azul guardava resquícios de uma espécie de poeira preta e espessa. Parecia que algo escuro havia sido peneirado ali. Levantei o olhar para o encosto do objeto e visualizei o estrago. O nervosismo das pessoas não era sobre a peça em si, mas sobre a estranheza que a deterioração causava. O encosto abrigava um rasgo que se iniciava bem no topo do encosto e se delongava até sua metade. Relativamente fina no início e no final; mas grossa em seu meio, a fenda era uma marca que dilacerava, de forma bastante profunda, o tecido.

    A trama azul do pano havia sido completamente destruída por este profundo arranhão, que não aparentava acidental. Parecia que algo havia cravado uma longa unha que arrastou ao longo do encosto, queimando-o intensamente. Estremecida, com minha mãe e irmã paralisadas na porta do quarto, passei a mão pela fenda e senti sua profundidade. O dano, tão abissal, me permitia inserir os dedos na fissura e sentir a parte final do espaldar da cadeira. Senti a garganta secar e os ombros se encolherem involuntariamente. 

    Levei a mão próxima ao nariz e senti o cheiro adentrar meu corpo como se ainda queimasse  ativamente. O ardor me recordou uma podridão familiar, mas ao mesmo tempo desconhecida. Paralisada diante da cadeira, observei que o pó escuro do assento havia caído desse violento rasgão que agora desfigurava o objeto. O que quer que tivesse feito esse corte, parecia imbuído de um ódio sedento que me intrigou e me assustou ao mesmo tempo. 

    Lembro-me de sentir uma certa repulsa, como se olhasse para uma ferida exposta e sangrenta. Curiosas, as outras duas mulheres da família aproximaram-se e encararam comigo a estranha situação. Tive meus pensamentos interrompidos com uma das frases mais estúpidas que já ouvi: “Será que você não deixou a chapinha ligada aí?”. Era possível que elas estivessem cegas?! “Claro que não! Olhe bem para isso!”. Eu não havia cometido este erro e o estrago não era sequer… humano.

    Fui questionada com mais algumas hipóteses insensatas, até me rebelar e afirmar categoricamente que não havia causado aquilo! Relatei que fiz minha rotina matinal normalmente para sair, deixando a chapinha, inclusive, no chão do banheiro social. Ressaltei que deixo-a ali justamente para que possa esfriar e ser guardada quando eu retorno ao final da tarde. Parecia uma inquisição. Levei-as ao banheiro e mostrei “a prova” da minha inocência. A chapinha estava cuidadosamente colocada no chão, enrolada em seu próprio fio. Completamente fria. Eu não estava louca!

    Minha defesa pareceu acalmá-las, ao mesmo tempo que trazia a tona mais suspeitas. Se não eu, quem? Ou o quê? Parecia que eu teria que explicar o inexplicável!

    Assustada e um pouco revoltada, retornei ao quarto e puxei agressivamente a cadeira para fora do cômodo. Atravessei o corredor e a sala arrastando-a violentamente e dizendo que a colocaria na rua. Aquele objeto não ficaria mais um segundo em casa, especialmente não no meu quarto! Destranquei a porta brutalmente e desci as escadas como se carregasse uma mera sacola nas mãos. 

    Olhando para cena hoje, não sei como conduzi o amorfo objeto tão rapidamente por três lances de escada abaixo. Passei pelos dois portões do pequeno edifício e arrastei-a morro acima até a esquina, onde ficava localizada a lixeira coletiva. Ali embaixo, aloquei a destroçada cadeira, esperando que alguém a coletasse. O que é lixo para alguns, é tesouro para outros.

    Retornei ao apartamento e encontro minha mãe com os olhos arregalados no alto da escada. “Você jogou fora mesmo?”. O tom inquisitorial havia desaparecido e dado espaço a uma certa preocupação com a situação no geral. “Joguei!”, disse. Puxei uma cadeira da mesa de jantar e carreguei-a ao quarto, avisando que a usaria para os meus estudos a partir de agora. Economizaria minha pequena remuneração do estágio e compraria outra quando possível. Meu pai, relaxado no sofá em frente a televisão desde o primeiro minuto, deu de ombros. 

    Minha mãe e minha irmã me seguiram ao quarto, onde perguntaram, agora em um timbre mais tranquilo, o que será que havia acontecido. Ciente do mundo espiritual e do interesse desses seres em minha vida, expliquei o que, para mim, já era óbvio. Eu não havia causado aquilo. Nem meus pais, os outros dois residentes fixos da casa. Minha irmã acabara de chegar na cidade. Ninguém mais esteve no apartamento desde o momento em que saí, quando definitivamente, a cadeira não estava assim. 

    Só havia uma explicação que, para mim, era razoável. Tratava-se de uma marca espiritual, alguém queria se fazer presente! Expliquei que espíritos fortes podem aparecer diante de nossos olhos, como já haviam aparecido para mim. Que podiam também, com muito esforço, mover objetos. Podiam mudá-los de lugar ou até… marcá-los, como havia sido o caso. Naquela época, minha família já sabia das minhas crenças e havia se aberto um pouco para elas. 

    Mesmo assim, todo o contexto gerava muita estranheza. Minha irmã parecia curiosa sobre o tema. Até acreditava em mim, mas… Minha mãe, rigorosamente católica, demonstrava certa desconfiança quanto ao que eu dizia. Sentia-me uma criança novamente. Desacreditada. Estaria ficando louca? O que quer que tenha acontecido, não podia ser racionalmente explicado. Logo, o assunto foi deixado de lado.

    Até o segundo acontecimento. 

    Como você pôde notar, caro leitor, este relato é a parte I de três eventos que ocorreram em um curto espaço de tempo no início da minha vida adulta. Naquela época, achava que mudar de quarto e me desfazer de objetos era suficiente. Eu estava começando uma nova vida, em um novo quarto. Isso não era suficiente? Descobri que não. Os objetos impregnam, sim, energia. Mais ainda, nós humanos. 

    E você, já viveu situações inexplicáveis? Já teve seus objetos misteriosamente marcados? Quer saber qual foi o segundo acontecimento? Continue acompanhando e verá!

    Até breve, 

    A Mulher da Pena Dourada

  • O quarto mais gélido

    maio 19th, 2025

    Você já esteve em um lugar com muitas pessoas? 

    E com muitos espíritos?

    O lugar que retratarei hoje possui ambos. Não se trata de algo comum. Com um histórico de luta, ganância, ouro, sangue e escravidão, não seria possível imaginar diferente. Os belíssimos casarões, com as janelas de guilhotina coloridas que contrastam com a caiação branca das paredes, encobriam o sofrimento do passado. Dor daqueles que ali somente lhes era permitida a sobrevivência, quando muito. 

    As ruas de pedra preenchem o traçado tortuoso da cidade, gélida e nebulosa, sempre marcada pela desigualdade daqueles que viviam nas grandiosas edificações. Casarões esses que não mais exibem essas assimetrias e hoje abrigam museus, comércios e repúblicas. Ah, as repúblicas! Cheias de novos corações, as casas acomodam jovens dispostos a viverem tudo de uma vez só, como quem morreria amanhã. Pensam eles sobre quem ali morreu ontem? 

    Eu não saberia dizer sobre o que refletem, pois não vivi as experiências que a vida de república oferece. Mas eu sei dizer, meu caro leitor, o que eu vivi em um desses casarões. Ansiosa para conhecer o dia-a-dia de uma querida amiga, nosso grupo se reúne para um final de semana na famosa cidade das repúblicas. Lugar onde as festividades se sobrepunham ao sofrimento. Onde, literalmente, dançava-se em porões onde outros provavelmente padeceram. À época, pouco ou nada se pensava sobre isso. 

    Um dilúvio de meninas distribuídas em dois pavimentos. Uma chuva de expectativas, sonhos, álcool e risadas. A função prístina era somente uma: diversão. Incluída nessa egrégora, senti-me em êxtase ao poder fruir de algo inédito em um lugar tão belo. Apresentei-me para a casa e me senti… vista. Ninguém entraria ali sem ser notado. 

    Mas eu também notei algo. Uma certa curiosidade. 

    A estreita fachada não fazia jus à edificação que ficava em frente a um cemitério e que possuía mais de dez cômodos, dos quais cerca de oito abrigavam aquelas que adormeciam. Os risos suaves das meninas destoavam das paredes de pedra gélidas e da madeira bruta dos pisos. Uma casa de contrastes. Pontos de escuridão em que se contavam piadas. Espelhos onde as moças se maquiavam, mas que não exibiam o que realmente estava ali. Janelas grandes pelas quais a luz, por alguma razão, não penetrava fortemente. Naquele momento, porém, somente alegria. 

    E admiração. Admirei a casa como se vislumbrasse uma paisagem. Em um dos quartos, inclusive, um espetáculo era emoldurado por uma robusta janela azul e branca aberta entre as paredes amarelas: outros casarões exibiam suas fortes estruturas em meio a árvores frutíferas e um céu azul de inverno. Naquele cômodo, o último da casa, repousaríamos naquelas noites. As duas camas de solteiro eram divididas por um armário antigo de madeira. Em frente a ele, atravessando o quarto e ao lado da porta, uma escrivaninha, onde alocamos embaixo todas as malas. No meio do quarto, colchões para abrigar todo o grupo durante o repouso noturno. Tudo ideal para as jovens que pretendiam ficar mais fora do que dentro do casarão.

    E, de fato, passamos boa parte do tempo explorando. Me permiti viver o momento, sem pensar no passado daquelas sinuosas e estreitas ruas; daquelas suntuosas e imponentes igrejas; daqueles cemitérios antigos e tomados por eternos habitantes. Cheios de histórias, como as casas daqueles que ali estavam sepultados. Uma das residências me vem à memória com mais facilidade. Do outro lado da rua de nossa hospedagem, esse segundo casarão era ainda mais grandioso. De pau-a-pique, a edificação era mais ancestral e transbordava mistério. 

    Antes, um lar de família. Hoje, uma república. Um porão convertido em boate. Mas ali, quem dançava era a morte. Com um vento gelado e cortante que não vinha de lugar algum, o baixo cômodo trazia a escuridão em seu âmago, de forma que luz alguma ali o clarearia totalmente. Buracos na parede que abriam alas para túneis que levavam ao enorme quintal. Alçapões no teto que concediam entrada para o chão dos armários nos quartos do andar superior. Uma casa de labirintos. Uma confusão de paredes, de sensações, de cômodos e de pessoas. Muitas pessoas. 

    Ali nos reunimos em determinada noite para fazer o que os jovens dali faziam de melhor: viviam. Sem parecer se preocuparem com as paredes impregnadas de sofrimento, bebiam, jogavam, conversavam e dançavam. Tentei fazer o mesmo, mas fui impedida. Não por qualquer objeção moral ou peso na consciência. Fui atacada fortemente por uma tenebrosa dor de cabeça que me infligiu grande sofrimento. Não havia medicação que auxiliasse na minha melhora, sendo necessária minha retirada. Deveria repousar. Despedi-me do divertido grupo de colegas e fui.

    Acompanhada de minha amiga, bastou que atravessássemos a rua de pedras escorregadias e já estávamos na porta principal da belíssima casa gélida que me abrigava. As inúmeras chaves esbarravam-se entre si enquanto as fechaduras eram destrancadas, originando uma suave música que funcionava como uma senha para abertura da porta. No hall de entrada, um código que desconheço era digitado para desativar o alarme que assegurava a proteção da edificação e de tudo que nela estava guardado. ‘Piiiiii’. Alarme desligado por um estrondoso apito.

    • Você está mesmo bem? Não quer que fique aqui com você? – disse ela. 
    • Fique tranquila, vai ser o tempo de deitar e dormir. Só preciso descansar mesmo. – respondi.

    Piiiiii. Alarme acionado novamente. Um beijo no rosto e minha amiga se foi. Havia alertado-me que, de acordo com as rígidas regras da república, não poderia deixar as chaves comigo. Não questionei e à época, sinceramente, não me preocupei. Meu único desejo era repousar a cabeça que tanto pesava no travesseiro e esperar que o dia amanhecesse. Hoje, penso na insanidade de me permitir ficar trancada em um casarão do século XIX sozinha madrugada a fora. No momento, subi os degraus de madeira que rangiam a cada pisada em direção ao que seria o meu quarto. 

    No corredor do andar superior, localizei algum dos apagadores, acendi as luzes que consegui e direcionei-me ao último quarto. Agachei-me para ter acesso ao espaço embaixo da escrivaninha, onde estava alocada minha mala. Dali, recolhi os itens que precisaria para ir ao banheiro e fiz minha rotina noturna normalmente. Hoje, surpreendo-me com a tranquilidade com que tratei a situação. A água congelante limpou a maquiagem do meu cansado rosto e o ar algente tocou meu corpo quando me despi para vestir o pijama. Com frio, corri pelo corredor, cuja luz deixei acesa, até retornar ao meu cômodo de descanso. 

    Organizei o que precisava, apaguei a luz e deitei-me em um dos colchões cuidadosamente preparados no chão no meio do quarto. Descontraí aos poucos os ombros conforme fui me aconchegando e esquentando as extremidades quase petrificadas do corpo. As mãos juntas e encolhidas na curva do pescoço. As pernas flexionadas com os joelhos aninhados contra a barriga. A cabeça, finalmente, acostada no suave travesseiro que havia levado de casa. Quase como se em uma meditação, concentrei-me em descansar a mente para tentar aliviar a dor. 

    O silêncio era interrompido somente com as risadas do grupo que há pouco me acolheu. As casas tão próximas, uma quase que de frente a outra, permitiam que eu ouvisse, se prestasse a devida atenção, até as conversas e piadas do agrupamento. Senti-me segura. Eu estava a uma ligação ou a um grito de distância de todos. A luz do corredor estava acesa. Poderia adormecer em paz. E assim entrei em determinado estado de transe que não posso afirmar quanto tempo durou. Acho que adormeci ao deleitante som daquele grupo. 

    De costas para a entrada do quarto, ouvi um ‘nhhhhaaaac’ quando a velha porta de madeira se moveu para a passagem de alguém.

    Leves e cuidadosos passos. Quase inaudíveis barulhos de deslocamento do corpo que se movia pelo pequeno espaço restante no cômodo, entre camas, colchões e escrivaninha. Praticamente imperceptíveis, distingui os sons dos remexidos nas malas. Era uma de minhas amigas? Procurava por seu pijama? Podia acender a luz, oras. Eu estava acordada de qualquer forma. Já melhor da dor de cabeça, virei-me ainda deitada para o restante do quarto, a fim de dizer isso a ela e perguntar como havia sido a noite. 

    Não havia ninguém.

    Aguardei alguns instantes para que minha visão se adaptasse à escuridão. Ao menos assim as coisas tomariam a devida forma. Talvez já tivesse se deitado? Não. Ninguém. Nada no cômodo parecia diferente. A não ser minha respiração. Ofegante, olhei novamente para as camas. Devidamente arrumadas, preparadas para receberem o restante do grupo, nenhuma coberta havia sido mexida, nenhum travesseiro com marcas de uso. Apoiada com as mãos no colchão, olhei para a porta. Fechada. A estreita linha embaixo dela, todavia, exibia uma diferença. Totalmente escura, revelava que as luzes do corredor não estavam acesas.

    Mas eu as deixei acesas. Não deixei? Tenho convicção que sim. Quem se deitaria sozinha em um quarto desconhecido sem deixar, pelo menos, a luz do corredor acesa?! Eu com certeza não. 

    Deitei-me novamente, embrulhando-me nas cobertas como se a elas pudesse me fundir. Em posição fetal, tentei me concentrar em nada. Conseguiria entrar em um estado meditativo novamente? Ouvi, como quando deitei-me pela primeira vez, as conversas e risadas da casa vizinha. As vozes fluíam naturalmente do outro lado da rua. Para eles, nada havia acontecido. Foquei em distinguir as falas e identifiquei tranquilamente uma de minhas amigas. Normalmente, todos contavam casos e riam. 

    Não haviam estado aqui. Até porque, se tivessem estado, como eu não ouviria o ensurdecedor ‘piiiiii’ do alarme? Para desativar, ouviria uma vez. Mesmo se estivesse dormindo, acordaria com o segundo ‘piiiiii’ que ativaria novamente o dispositivo. Lamentavelmente, quem já viveu experiências como as minhas, nunca dorme plenamente. Organizei, como tudo na minha vida, meus pensamentos e as possibilidades. Não encontrei nenhuma explicação plausível. Quem quer que tenha entrado no quarto, não entrou no casarão depois de mim. Já estava nele. Acho que pertencia a ele. 

    Mantive-me em alerta. Atenta a todo e qualquer barulho além das vozes na edificação vizinha. Nada. Acredito que tenha entrado em um estado de quase sono novamente… Com o passar do tempo, as vozes foram se acalmando e, em seguida, se aproximando novamente. Isso me gerou estranheza. De repente, sons mais altos e mais próximos. Minhas amigas estavam chegando. 

    Chaves. ‘Piiiiii’. Conversas e risos. Passos. Subindo as escadas. Rangidos. Conversas. Risos.  Acenderam as luzes do corredor superior, como pude ver pela fresta debaixo da porta. Alto. Mais alto. Mais alto. Mais baixo. Mais baixo. Baixo. Tentaram reduzir o barulho ao chegarem na porta do quarto. ‘Nhhhhaaaac’. Abriram a porta. Os sons eram, portanto, plenamente identificáveis. Pude comprovar, naquele momento, que aquela era uma casa barulhenta em meio ao silêncio da madrugada. Um casarão que denunciava qualquer coisa e qualquer um. 

    • Oi! – eu disse. 
    • Ah, ela está acordada. – disse uma delas. Posso acender a luz? 

    Confirmei e assim fizeram. Acenderam a luz e foram entrando. Embriagadas e rindo de situações que não presenciei, perguntaram se eu estava melhor. Disse que sim, havia descansado um pouco. Espremendo-se entre os espaços do quarto que não estavam ocupados pelos colchões e malas, observei como foram se ajeitando, pegando os pijamas e retirando os sapatos. Atentei-me aos barulhos que faziam enquanto se acomodavam. Era parecido, mas diferente. Não tentavam silenciar-se, então todos os sons eram amplificados. 

    Esperançosa de que dissessem sim, questionei se alguém tinha voltado à casa depois que eu tinha me deitado. Talvez tivessem esquecido algo. Um casaco, talvez? A resposta foi negativa. Todas haviam permanecido no mesmo lugar e retornaram apenas agora, todas juntas. Relatei o ocorrido e fui recebida com repetidos “Credo!”, “Nossa Senhora!”, “Meu Deus!”. A explicação que eu gostaria de ouvir viria da minha amiga residente da casa, obviamente. Mas essa se manteve inerte. “É, amiga, vamos dormir.” ou algo do gênero, foi sua resposta. 

    O final de semana seguiu. Fiz questão de me manter cercada de pessoas e não vivenciei mais nada em concreto. Lembro-me de observar a casa com mais atenção do que antes. Não somente admirá-la. Reparei-a como quem procura algo. Busquei com meus olhos uma sombra que fosse, dei a chance para que ela se mostrasse. Nada. “Ela”, pois sei que era uma mulher. Desenvolvi ao longo dos anos a habilidade de distinguir o gênero dos seres que se manifestam para mim, bem como suas intenções. Mas aquela mulher, que se mostrou um tanto quanto curiosa, não se revelou mais. Sentiu-se à vontade o suficiente para verificar meus pertences e, depois, ocultou-se. 

    Fomos embora com boas lembranças. A cidade é linda. As pessoas sabem se divertir. Desatentas e despreocupadas com o histórico do lugar, os jovens seguem suas vidas nas repúblicas, realmente como se fossem morrer amanhã. Mas não posso mais afirmar que não pensam nos que morreram ontem. Para escrever este relato, encontrei-me com minha amiga que morou naquele casarão. Haviam se passado quase dez anos! Ela se lembraria? 

    “Não vou olhar para isso, para isso não crescer”. Ela me contou que era o que dizia para si mesma sempre que alguém relatava algo sobre a casa. Eu não havia sido a primeira. E nem a última. Uma casa de tantos anos, em uma cidade com tanta história, não poderia não ter uma carga de mistério. Na tentativa de se proteger e de não vivenciar experiências semelhantes, minha amiga tentou ignorar o que muitos presenciaram. Ao tapar os ouvidos para os tormentos vividos pelas colegas, especialmente naquele quarto, ela se blindava. Agora, anos mais tarde, disse entender que o lugar merecia mais respeito.

    A república permanece. A cada semestre, novos corações. Outras jovens meninas ansiosas para viverem uma vida em uma das cidades mais históricas do país. No final do corredor do segundo andar, o quarto mais gélido da casa – agora pintado de branco – acolhe as moradoras com sua bela vista pela janela de guilhotina. Seria a mulher um espírito curioso pela vida das moças que por ali passam? Interessa-se pelos pertences delas? Apega-se a aquele quarto por qual razão? 

    Esses questionamentos, caro leitor, não posso responder. Estive, de fato, naquele casarão algumas vezes depois desse ocorrido. Mas não naquele cômodo. Será que aquele gélido quarto, onde uma mulher curiosa reside, ainda trará mais mistérios? Continue acompanhando e verá.

    Até breve,

    A Mulher da Pena Dourada.

  • A casa da avó

    março 23rd, 2025

    Se alguns adultos esvaziam suas terras em busca de uma vida melhor na capital e, com isso, jamais retornam aos seus locais de origem, outros regressam com frequência às moradas anteriores. Assim foi comigo. Inúmeros de meus finais de semana foram vivenciados no interior materno, onde as ruas eram tranquilas e as casas antigas eram predominantes. O céu límpido não era obstruído por prédios. Os idosos iam à missa. As crianças brincavam na praça. Ali, a menina que fui assumia uma infância que era, não raras vezes, limitada pelas paredes do apartamento na capital.

    Apesar da grande concentração de familiares em uma única cidade, o centro da árvore genealógica era apenas um: a casa dos avós. Localizada na rua principal, a pequena murada não requeria cercas ou portões. Muito pelo contrário, convidava os transeuntes a visitarem o simpático e conhecido casal de idosos que mantinha uma rotina nas cadeiras da varanda. Dali, visualizavam o movimento e cumprimentavam os conhecidos. A casa branca com detalhes em azul claro se tornava mais colorida com as flores do jardim, também reproduzidas nos vestidos e nos pijamas da senhora mais respeitada da casa: a avó.

    Senhora essa que representava a raiz de nossa família contemporânea. Raiz, inclusive, desenhada no quadro que exibia a árvore genealógica. Cada galho expunha o nome dos filhos com esposas e maridos. Cada fruto, os nomes dos netos. Dentre eles, eu. Durante meu crescimento, a vi circular pela casa e realizar suas atividades domésticas, sua vida matrimonial. “Eu queria ser enfermeira, mas tinha que me casar”. À época, um sonho era excludente do outro. E essa foi sua vida.

    A cozinha, que tinha como centro uma mesa de jantar em madeira, era lar de uma senhora que cozinhava. O tanque de lavar roupa era exposto ao sol e à chuva na parte de trás da casa. Um pé de jabuticaba adornava o quintal, que também era composto por largos espaços de terra, por vezes ocupado com plantações de milho. Ali, a criança que fui não precisava de uma amiga imaginária, ela vivia. Escavava a terra em busca de fósseis de dinossauros, agia como espiã e investigava a família. Enfim, brincava.

    Mas nem sempre em paz.

    A alegria que me tomava ao estar ali era proporcional a alguns medos. Medos esses que desenvolvi ao conhecer a realidade da vida existente entre aqueles muros. Com os anos, não apenas a casa envelhecia, mas a própria vida de seus moradores definhava.

    O menor quarto da casa tinha sua janela voltada para frente, onde o jardim rico em flores não era compatível com o sofrimento ali dominante. O cômodo abrigava um armário em madeira e uma cama alta de modelo hospitalar, o jazigo prévio do avô. Sem movimentos, sem memória e sem acesso a uma vida privada, era cuidado diariamente por uma de suas filhas. Os papéis haviam se invertido. Ao adentrar na casa pela porta principal, agora cinza e com uma janela em vidro e gradil de mesma cor, os netos eram imediatamente direcionados ao minúsculo quarto para ‘tomar a benção’.

    Infantil, lembro de me questionar se não se tratava de uma encenação, um subterfúgio para atrair atenção. Minha consciência dói ao recordar de meus pensamentos impuros. “Ele poderia morrer”, pensei quando foram ao seu cuidado e não me deram a imediata atenção que desejei. Os crepúsculos eram sucessivos quando realmente aconteceu. Ele se foi. O sofrimento de minha mãe, a filha mais nova do idoso, corroía sua vivacidade. A viúva aceitou a passagem. O luto de todos os filhos escureceu o pequeno cômodo.

    Agora abrigado pelo caçula da família, o quarto mantinha uma aura densa. Abusador de álcool, o atual residente da casa impunha medo com comportamentos agressivos e perversos. A cada visita, o ritual era repetido: ‘benção’. E seguia-se o forte ardor da bebida. Apenas ao amadurecer entendi suas tentativas reiteradas e sorrateiras de aproximação das crianças. Não bastasse o pequeno cômodo na frente da casa, habitava também o quarto externo da residência e que tinha porta para o quintal. Meu espaço de ser criança também havia sido tomado. “Ele poderia morrer”, repetiu-se o pensamento.

    A partir de então, encaixei-me onde me cabia. Acolhida pela avó na beirada da cama de casal, ouvia relatos de nossa árvore genealógica. O quarto dos fundos pertencia somente à matriarca, agora acamada com seus pijamas antigos que marcavam os ossos dos ombros, mas sempre com as madeixas esbranquiçadas penteadas e o sorriso disponível. Essa benção era a que eu ansiava e respeitava. Ali, junto às raízes da família, me era acessível um contato com a história de pessoas que não mais se encontravam entre nós. Com sonhos interrompidos. Com tristezas permanentes que brincavam de esconde-esconde entre os cômodos da casa. As histórias eram intensas e, mal sabia eu, incompletas.

    Um trisavô que assumiu o baronato e casou-se com sua escravizada. Encarcerada pelo matrimônio até o fim de seus dias? Parecia amaldiçoada. Sua filha, obrigada a se casar com alguém doze anos mais velho, ironicamente casou-se aos doze anos. “Depois da cerimônia, foi brincar de bonecas”, contava. Infância roubada. Maldições e maldições. Essa cronologia resultou na própria mulher que me contava essa história, minha avó. Resultou também naquela que me deu a vida, minha mãe. Resultou em mim. Seria eu amaldiçoada também? “Tem coisa que a gente não fala e nem mexe, minha filha”, vovó dizia. Escondia algo de mim?

    O sombrio passado me esfriava a espinha, mas também me atraía. Interessada, questionava tudo e todos. Como eram, como se portavam, como falavam? Agora pré-adolescente, o colo da avó supria a curiosidade e estimulava o desejo por mais histórias. Tornei-me mais atenta ao mundo ao meu redor, seja ele material ou não. No quarto da senhora, observava o espelho manchado, a leve brisa que levantava as pesadas cortinas, a cabeceira de madeira escura e detalhada que formava círculos e colunas adornadas.

    Com a avó no centro da cama, deitava-me encostada em seu ombro direito e de costas para a porta de entrada. Ali, éramos observadas. Seria o início de outras experiências? Cada vez mais vazia, a casa exibia os sinais do tempo e da tristeza. A madeira do chão rangia sem que andassem. Olhos que eu não via me acompanhavam. Pessoas que não estavam ali se faziam presentes. Presentes nas louças antigas passadas de geração em geração, nos jarros que tinham incrustados em seu barro o tempo.

    O quintal já não era palco de minha imaginação, mas sim um espaço morto. Local onde depositava os olhos, mas não mais os pés. As jabuticabas apodreciam, sem que ninguém as colhesse. A capina mantinha a terra sem plantação para que não requeresse cuidado. De pé na porta da cozinha, mal descia os dois ou três degraus que abriam alas para área externa. Sem compreender bem a tristeza e o anseio que sentia, observei atentamente o fundo do quintal, onde pus os olhos em algo.

    Com uma postura curva, como se cansado, algo nebuloso caminhava junto ao muro final. Acompanhei a figura preta sem reagir. Com a respiração contida, meus olhos escoltavam o ser que lentamente andava da direita para a esquerda do loteamento. No decorrer de seu percurso, passou a ser levemente encoberto pelos galhos da jabuticabeira. Incrédula, desci os degraus que há tempos não pisava para melhor visualizar a cena. Sem sequer direcionar sua face para mim, ele havia finalizado sua passagem, sem que eu pudesse compreender o exato momento do fim de sua rota. Paralisada, não atraí atenção, não gritei. Taquicárdica, aguardava minha própria mente formar uma explicação.

    Tempos mais tarde, o jardim da frente se esvaziou junto às flores murchas nos pijamas da avó. Já no hospital, recusava-se a dormir, por medo da morte. Sua recusa foi em vão. A autoridade materna se foi, o luto dominou a todos novamente, a casa escureceu-se permanentemente. A raiz da família havia apodrecido. Demolida, os detalhes cinzas das janelas foram ao chão, junto aos tacos que compunham os pisos. A jabuticabeira teve sua vida interrompida. Junto a isso, ruiu também o pequeno quarto da frente. Guardiãs de enfermos e alcoólatras, as paredes encontraram seu fim. Fim este que foi ao encontro do grande quarto dos fundos, lar da matriarca da família, o laço que unia a todos sem perceber que muitos não mereciam a união.

    Para os que mereciam, as histórias continuavam. Assumi o papel de minha avó e repassei aos mais jovens – e até aos mais velhos – as narrativas sobre a família. Regozijava-me com o fato de saber detalhes sobre os ancestrais que mais ninguém sabia. Até compreender que eu não sabia de tudo. As histórias estavam, de fato, incompletas. A grande mulher que tanto admirei me escondeu a mais importante e mais dolorosa delas.

    Apenas mais velha esclareceram-me que minha avó iniciou sua vida adulta órfã de mãe. Assassinada, minha bisavó deixou nove filhos, dentre os quais dois ou três foram criados por aquela que me acolhia em sua cama. Em sofrimento, minha avó passou todos os dias de sua existência com o peso da ideia de que seu próprio pai havia encomendado a morte de sua mãe. O processo não concluiu dessa forma, mas era o que os comentários mantinham como verdade. O que ela entendia como verdade?

    Hoje convivo com o fato de não saber. Em todas as oportunidades que teve, minha avó me protegeu dessa história. Me protegeu da verdade. Me escondeu a verdade. Ocultou o fato de que tiraram a vida de minha bisavó aos tiros. Que os projéteis atingiram tanto e com tanta agressividade seu rosto, que a morte foi buscá-la em sua própria casa. Enterrou o fato de que, em agonia, sua mãe confessou que as mulheres da família eram amaldiçoadas. Somos?

    Se a maldição envolve a curiosidade quase mórbida sobre o passado, eu a confirmo. Se ela atribui a nós olhos mais sensíveis e atentos ao outro lado, ratifico-a. “Tem coisa que a gente não fala e nem mexe, minha filha”. Sinto muito, vovó, nunca foi uma escolha. Hoje entendo que a vida se apresentou para mim de forma diferente do que para outras pessoas. Que o véu não é tão encorpado diante de mim. Que os que se foram sentem atração pela minha vida e que, em certa medida, eu também sinto pela vida deles. Entendo, finalmente, que a morte havia estado ali, naquele dia no quintal, sem que ela mesma se desse conta da minha presença.

    A avó se foi. A casa também. Restaram as louças, os jarros, o quadro. Do quadro, os galhos dos filhos vão morrendo um a um. Sobre os frutos, os netos repassam aos bisnetos o que sabem. Escolhemos não perpetuar os segredos. Escolhi pesquisar, investigar, registrar. Escolhi escrever. Você gostaria de se juntar a mim? Continue acompanhando e verá.

    Atenciosamente,

    A Mulher da Pena Dourada.

  • O visitante

    dezembro 10th, 2024

    Tive uma infância comum para uma família de classe média baixa na década de 90. Pai e mãe, vindos do interior, trabalhavam fora para sustentar uma nova vida. Somente a mãe cuidava da casa e a enchia com aromas de biscoitos, bolos e feijão recém cozido. O pai era dedicado às finanças e estimulava os estudos acima de tudo. A irmã, três anos mais velha, já não tinha tanta paciência para brincar com a caçula. Éramos quatro em um apartamento na zona noroeste da capital. O piso antigo em tacos dificultava a passagem da vassoura, enquanto as paredes brancas exibiam a marca do tempo com algumas rachaduras e descascados na pintura. Os lustres dourados e curvilíneos marcavam uma época melhor, assim como os robustos móveis de madeira que poderiam preencher uma mansão, mas que ficavam apertados em uma sala para dois ambientes pequenos. Sei que ali existiram tapetes, mas nunca os senti com meus pés, somente ouvi dizeres sobre como eles adornavam a sala.

    Na época, não se falava em individualidade ou privacidade. Éramos crianças e crianças dividiam o quarto. Assim foi comigo. Não percebíamos o aperto, mas o sentíamos de alguma forma. As camas de solteiro eram ornamentadas com cabeceiras de madeira escura e separadas por um criado mudo também em madeira. Era isso. Um armário de três portas comportava nossas roupas e uma janela acima da cama de minha irmã exibia a paisagem comum do bairro. Pelo vidro podíamos ver a rua em pedras, que servia de base para casas antigas que eram emolduradas pelo céu. O vento era constante, mas a corrente com cadeado que limitava a abertura da janela permitia somente uma singela passagem da brisa.

    A outra visão do cômodo era ainda mais rotineira: a um ou dois passos do final de minha cama eu poderia encostar na porta de entrada do quarto, localizado no fim do corredor estreito que guardava um relógio na parede final. Sei que existiram quadros com fotos nossas nessas paredes, mas nunca os vi pendurados, apenas entulhados nos maleiros dos armários, onde as traças tinham fácil acesso à madeira de suas molduras. Não tínhamos luxo algum, mas vivíamos muito bem.

    O que me faltava de estímulo visual, eu criava. Minha infância foi marcada por estudar, brincar na sala de televisão e viajar para o interior onde o restante da família residia. No apartamento, passava horas sendo detetive, brincando de casinha ou com dezenas de bonecos e objetos em miniatura. No interior podíamos passear pelas ruas, ir à praça e, ainda mais especial, ter um quintal. O da minha tia servia para minha fábrica de bolinhos de barro. O da minha avó servia para escavações paleontológicas. Hoje percebo que fui uma criança bastante criativa.

    Criativa ao ponto de ter uma amiga imaginária, a Tiffany. A criança que me acompanhava em casa era uma menina clara ao ponto de ser pálida e possuía traços bastante delicados. Os olhos eram suaves e a boca era fina, quase como um traço feito a lápis no papel. Todos os dias se vestia igual: um vestido claro até a altura dos tornozelos combinava perfeitamente com o enorme laço que enfeitava sua cabeça. Lembro-me que era de um tecido transparente, levemente cintilante e com pequenas bolinhas rosa claro. Apesar de não saber de onde veio seu rosto, sua vestimenta era semelhante a uma que brincava de colocar nas bonecas. Por alguma razão, a Tiffany não saía de casa. Ela morava apenas ali. Quando eu precisava sair, a levava comigo por meio de um “tazzo”, uma espécie de figurinha em formato circular que, nesse caso, exibia o desenho de uma enfermeira.

    Apesar da péssima memória para alguns fatos – especialmente marcos temporais, minha mente era capaz de preencher meus dias com alegria e aventuras. Com essa imaginação fértil, eu não me sentia tão sozinha. Tinha meus brinquedos, minhas histórias e tinha também a Tiffany.

    Até a noite chegar.

    Por alguma razão, entre o que imagino ser os anos 2000 e 2003, eu não dormia bem. Com o cair do sol, a companhia de Tiffany desaparecia e a cama que minha mãe havia preparado com tanto cuidado não me acolhia. O cobertor branco com flores rosas não me protegia do medo, por mais que eu tentasse. Admiti que tinha medo do escuro e, ao me deitar, a porta era mantida entreaberta com a luz do corredor acesa. Um feixe de luminosidade clareava parte do corpo de minha irmã deitada em sua cama e isso me permitia fechar os olhos no começo da noite. Pelo menos alguma luz entrava no cômodo. De madrugada, quando meus pais já estavam dormindo, eu despertava. Revoltava-me com o fato de que a luz do corredor havia sido apagada, provavelmente no momento em que viram que eu dormi. A porta aberta ou fechada não era suficiente, eu precisava da luz.

    Mas, na madrugada, quando eu mais necessitava dela, restava apenas a escuridão. E era por meio dela que ele vinha.

    De início, ocorria como algo inusitado. Eu não sabia se aconteceria ou não. Ao passar das semanas, eu já sabia que ele viria. Eu não o identificava como ninguém, não o reconhecia, não sabia descrever. Uma figura completamente escura vinha até mim todas as noites. Estando a porta do quarto aberta ou fechada, ele chegava até mim. Lentamente, com o andar que parecia não envolver qualquer passo, mas que o movia ao longo do dormitório, o que sentia ser um homem se aproximava ao redor de minha cama e parava bem no rumo de meu travesseiro. Se deitada para o lado da parede, o sentia. Se deitada para o lado oposto, via claramente a figura achegar-se próxima a mim.

    Não respirava, não emitia nenhum som. Assim como eu. Por motivos que não encontro explicação, acreditava que quanto menos eu me mexesse, menos ele me notaria. Tola. Ele vinha até mim como rotina e me observava por horas. Lembro-me de cobrir cada parte do meu corpo e tampar a boca com a manta, para que a respiração não o chamasse a atenção. Imóvel ao ponto de enrijecer os músculos dos ombros, imaginava que quanto menos eu me movesse, menos ele me vigiaria. Inocente. O ser escuro e sem forma delineada passava pela cama de minha irmã como se fosse um canto vazio. Não demonstrava o menor interesse por aquele lado do quarto.

    Em dias específicos, quando acordava, ele já estava ali. Não o tinha visto entrar, mas ali estava. Em pé, parado, no rumo de meu travesseiro. Minha visão era do que pareciam ser suas pernas, praticamente encostadas no colchão, mas sem tocar em nada, especialmente sem tocar em mim. Observava-me simplesmente. Por horas a fio, como se sua única ocupação fosse manter-se ali. Em determinado ponto, retirava-se lentamente. Dando as costas para mim, ia em direção a porta e simplesmente saía. Desaparecia como se nunca tivesse existido. Como se nunca tivesse me visitado.

    Durante anos convivi com o visitante, mas não relatei suas vindas a ninguém. Crianças tinham imaginação fértil, viam coisas que não existiam e, ainda pior, podiam mentir sobre isso. Guardei comigo todas as sensações, todos os respiros sufocados, todo o corpo endurecido, todas as “noites que passei em claro” que, em verdade, não tinham nada de claridade. Era completamente indefesa perante algo que não sabia identificar ou explicar. Por que algo tão sombrio me vigiaria? O que teria eu de interessante? Por que minha irmã não o via? E por que ele não se interessava por ela? Obviamente, nunca recebi explicações. Tudo deveria brotar da minha criatividade.

    Será?

    Depois de alguns anos, como em um passe de mágica, as visitas cessaram. Não fui mais incomodada pelo visitante, que desistiu de musealizar minha existência, observando-me como quem repara em um quadro exposto em uma galeria de arte. Por volta do que imagino ser entre os meus 09 ou 10 anos de idade, voltei a dormir melhor. Nunca perfeitamente, mas melhor. A imagem da porta perante minha cama permanece em minha mente. Em algum momento, quando eu já estivesse mais velha, ele voltaria para me observar? Não aconteceu até então. Mas isso não significa que nada tenha acontecido.

    Nunca duvidei de tudo que se passou. Apenas quem vive um contato como este, consegue recordar do que significa se arrepiar quando, na verdade, se está com calor. Temer algo é não conseguir corresponder ao que seu corpo clama. Ao invés de mover-se quando seus músculos exigem, você se petrifica. Ao invés de gritar por socorro, sua garganta se esgana com a própria mucosa do interior do seu corpo. Tentar passar-se por despercebida era a única opção. Mas ela nunca funcionou. A partida do visitante não teve relação com qualquer fato que tenha vindo de mim, ele simplesmente se foi. Sem deixar vestígios. Apenas na minha mente.

    E, na verdade, na mente dos meus pais.

    Anos mais tarde, já na juventude, quando os meus dizeres podiam ser ouvidos com alguma veracidade, relatei os ocorridos ao meu pai e minha mãe. Brevemente, recordei as noites terríveis que vivi e o assombro que sentia em ser observada noite após noite. O senhor sério, de cabelos brancos e óculos grandes, que não se abalava por qualquer ocorrido, mostrou algum desconforto. Papai me relatou que em um determinado tempo, eles não viviam bem em nosso apartamento. Sentiam ares estranhos, incômodos, como se estivéssemos sendo observados. Mamãe ratificou e complementou o relato. A tensão era tão palpável que chegavam a olhar embaixo das camas e dentro dos armários quando eu e minha irmã não estávamos em casa. Não queriam nos amedrontar, mas “tinha alguém aqui”, diziam. Procuravam e não encontravam.

    A época que descreveram era exatamente a mesma em que o visitante estava em minha vida. O foco de suas visitas até poderia ser eu, mas ele não passou despercebido. Acordado várias noites em sua cama, papai tentava ouvir barulhos de passos, perceber qualquer movimento no lar. Nada. Imperceptível. O visitante era tão silencioso quanto eu tentava ser. Sua presença, por mais que muda, ainda ressoa em nossas mentes que, ao recordarem daquela época, se conectam com o passado misterioso que vivemos. O passado, na verdade, ainda está presente. Escrevo este relato no mesmo cômodo em que passei minha infância. No mesmo quarto em que era visitada. Hoje, no que chamo de escritório, sento-me de costas para a porta de madeira que foi a passagem de entrada para o meu visitante.

    Sua presença não é mais sentida. Mas, mais de vinte anos depois, permaneço aqui, no mesmo apartamento. Teremos mais relatos sobre este lar que ainda habito? Continue acompanhando e verá.

    Atenciosamente,

    A Mulher da Pena Dourada.

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