O visitante

Tive uma infância comum para uma família de classe média baixa na década de 90. Pai e mãe, vindos do interior, trabalhavam fora para sustentar uma nova vida. Somente a mãe cuidava da casa e a enchia com aromas de biscoitos, bolos e feijão recém cozido. O pai era dedicado às finanças e estimulava os estudos acima de tudo. A irmã, três anos mais velha, já não tinha tanta paciência para brincar com a caçula. Éramos quatro em um apartamento na zona noroeste da capital. O piso antigo em tacos dificultava a passagem da vassoura, enquanto as paredes brancas exibiam a marca do tempo com algumas rachaduras e descascados na pintura. Os lustres dourados e curvilíneos marcavam uma época melhor, assim como os robustos móveis de madeira que poderiam preencher uma mansão, mas que ficavam apertados em uma sala para dois ambientes pequenos. Sei que ali existiram tapetes, mas nunca os senti com meus pés, somente ouvi dizeres sobre como eles adornavam a sala.

Na época, não se falava em individualidade ou privacidade. Éramos crianças e crianças dividiam o quarto. Assim foi comigo. Não percebíamos o aperto, mas o sentíamos de alguma forma. As camas de solteiro eram ornamentadas com cabeceiras de madeira escura e separadas por um criado mudo também em madeira. Era isso. Um armário de três portas comportava nossas roupas e uma janela acima da cama de minha irmã exibia a paisagem comum do bairro. Pelo vidro podíamos ver a rua em pedras, que servia de base para casas antigas que eram emolduradas pelo céu. O vento era constante, mas a corrente com cadeado que limitava a abertura da janela permitia somente uma singela passagem da brisa.

A outra visão do cômodo era ainda mais rotineira: a um ou dois passos do final de minha cama eu poderia encostar na porta de entrada do quarto, localizado no fim do corredor estreito que guardava um relógio na parede final. Sei que existiram quadros com fotos nossas nessas paredes, mas nunca os vi pendurados, apenas entulhados nos maleiros dos armários, onde as traças tinham fácil acesso à madeira de suas molduras. Não tínhamos luxo algum, mas vivíamos muito bem.

O que me faltava de estímulo visual, eu criava. Minha infância foi marcada por estudar, brincar na sala de televisão e viajar para o interior onde o restante da família residia. No apartamento, passava horas sendo detetive, brincando de casinha ou com dezenas de bonecos e objetos em miniatura. No interior podíamos passear pelas ruas, ir à praça e, ainda mais especial, ter um quintal. O da minha tia servia para minha fábrica de bolinhos de barro. O da minha avó servia para escavações paleontológicas. Hoje percebo que fui uma criança bastante criativa.

Criativa ao ponto de ter uma amiga imaginária, a Tiffany. A criança que me acompanhava em casa era uma menina clara ao ponto de ser pálida e possuía traços bastante delicados. Os olhos eram suaves e a boca era fina, quase como um traço feito a lápis no papel. Todos os dias se vestia igual: um vestido claro até a altura dos tornozelos combinava perfeitamente com o enorme laço que enfeitava sua cabeça. Lembro-me que era de um tecido transparente, levemente cintilante e com pequenas bolinhas rosa claro. Apesar de não saber de onde veio seu rosto, sua vestimenta era semelhante a uma que brincava de colocar nas bonecas. Por alguma razão, a Tiffany não saía de casa. Ela morava apenas ali. Quando eu precisava sair, a levava comigo por meio de um “tazzo”, uma espécie de figurinha em formato circular que, nesse caso, exibia o desenho de uma enfermeira.

Apesar da péssima memória para alguns fatos – especialmente marcos temporais, minha mente era capaz de preencher meus dias com alegria e aventuras. Com essa imaginação fértil, eu não me sentia tão sozinha. Tinha meus brinquedos, minhas histórias e tinha também a Tiffany.

Até a noite chegar.

Por alguma razão, entre o que imagino ser os anos 2000 e 2003, eu não dormia bem. Com o cair do sol, a companhia de Tiffany desaparecia e a cama que minha mãe havia preparado com tanto cuidado não me acolhia. O cobertor branco com flores rosas não me protegia do medo, por mais que eu tentasse. Admiti que tinha medo do escuro e, ao me deitar, a porta era mantida entreaberta com a luz do corredor acesa. Um feixe de luminosidade clareava parte do corpo de minha irmã deitada em sua cama e isso me permitia fechar os olhos no começo da noite. Pelo menos alguma luz entrava no cômodo. De madrugada, quando meus pais já estavam dormindo, eu despertava. Revoltava-me com o fato de que a luz do corredor havia sido apagada, provavelmente no momento em que viram que eu dormi. A porta aberta ou fechada não era suficiente, eu precisava da luz.

Mas, na madrugada, quando eu mais necessitava dela, restava apenas a escuridão. E era por meio dela que ele vinha.

De início, ocorria como algo inusitado. Eu não sabia se aconteceria ou não. Ao passar das semanas, eu já sabia que ele viria. Eu não o identificava como ninguém, não o reconhecia, não sabia descrever. Uma figura completamente escura vinha até mim todas as noites. Estando a porta do quarto aberta ou fechada, ele chegava até mim. Lentamente, com o andar que parecia não envolver qualquer passo, mas que o movia ao longo do dormitório, o que sentia ser um homem se aproximava ao redor de minha cama e parava bem no rumo de meu travesseiro. Se deitada para o lado da parede, o sentia. Se deitada para o lado oposto, via claramente a figura achegar-se próxima a mim.

Não respirava, não emitia nenhum som. Assim como eu. Por motivos que não encontro explicação, acreditava que quanto menos eu me mexesse, menos ele me notaria. Tola. Ele vinha até mim como rotina e me observava por horas. Lembro-me de cobrir cada parte do meu corpo e tampar a boca com a manta, para que a respiração não o chamasse a atenção. Imóvel ao ponto de enrijecer os músculos dos ombros, imaginava que quanto menos eu me movesse, menos ele me vigiaria. Inocente. O ser escuro e sem forma delineada passava pela cama de minha irmã como se fosse um canto vazio. Não demonstrava o menor interesse por aquele lado do quarto.

Em dias específicos, quando acordava, ele já estava ali. Não o tinha visto entrar, mas ali estava. Em pé, parado, no rumo de meu travesseiro. Minha visão era do que pareciam ser suas pernas, praticamente encostadas no colchão, mas sem tocar em nada, especialmente sem tocar em mim. Observava-me simplesmente. Por horas a fio, como se sua única ocupação fosse manter-se ali. Em determinado ponto, retirava-se lentamente. Dando as costas para mim, ia em direção a porta e simplesmente saía. Desaparecia como se nunca tivesse existido. Como se nunca tivesse me visitado.

Durante anos convivi com o visitante, mas não relatei suas vindas a ninguém. Crianças tinham imaginação fértil, viam coisas que não existiam e, ainda pior, podiam mentir sobre isso. Guardei comigo todas as sensações, todos os respiros sufocados, todo o corpo endurecido, todas as “noites que passei em claro” que, em verdade, não tinham nada de claridade. Era completamente indefesa perante algo que não sabia identificar ou explicar. Por que algo tão sombrio me vigiaria? O que teria eu de interessante? Por que minha irmã não o via? E por que ele não se interessava por ela? Obviamente, nunca recebi explicações. Tudo deveria brotar da minha criatividade.

Será?

Depois de alguns anos, como em um passe de mágica, as visitas cessaram. Não fui mais incomodada pelo visitante, que desistiu de musealizar minha existência, observando-me como quem repara em um quadro exposto em uma galeria de arte. Por volta do que imagino ser entre os meus 09 ou 10 anos de idade, voltei a dormir melhor. Nunca perfeitamente, mas melhor. A imagem da porta perante minha cama permanece em minha mente. Em algum momento, quando eu já estivesse mais velha, ele voltaria para me observar? Não aconteceu até então. Mas isso não significa que nada tenha acontecido.

Nunca duvidei de tudo que se passou. Apenas quem vive um contato como este, consegue recordar do que significa se arrepiar quando, na verdade, se está com calor. Temer algo é não conseguir corresponder ao que seu corpo clama. Ao invés de mover-se quando seus músculos exigem, você se petrifica. Ao invés de gritar por socorro, sua garganta se esgana com a própria mucosa do interior do seu corpo. Tentar passar-se por despercebida era a única opção. Mas ela nunca funcionou. A partida do visitante não teve relação com qualquer fato que tenha vindo de mim, ele simplesmente se foi. Sem deixar vestígios. Apenas na minha mente.

E, na verdade, na mente dos meus pais.

Anos mais tarde, já na juventude, quando os meus dizeres podiam ser ouvidos com alguma veracidade, relatei os ocorridos ao meu pai e minha mãe. Brevemente, recordei as noites terríveis que vivi e o assombro que sentia em ser observada noite após noite. O senhor sério, de cabelos brancos e óculos grandes, que não se abalava por qualquer ocorrido, mostrou algum desconforto. Papai me relatou que em um determinado tempo, eles não viviam bem em nosso apartamento. Sentiam ares estranhos, incômodos, como se estivéssemos sendo observados. Mamãe ratificou e complementou o relato. A tensão era tão palpável que chegavam a olhar embaixo das camas e dentro dos armários quando eu e minha irmã não estávamos em casa. Não queriam nos amedrontar, mas “tinha alguém aqui”, diziam. Procuravam e não encontravam.

A época que descreveram era exatamente a mesma em que o visitante estava em minha vida. O foco de suas visitas até poderia ser eu, mas ele não passou despercebido. Acordado várias noites em sua cama, papai tentava ouvir barulhos de passos, perceber qualquer movimento no lar. Nada. Imperceptível. O visitante era tão silencioso quanto eu tentava ser. Sua presença, por mais que muda, ainda ressoa em nossas mentes que, ao recordarem daquela época, se conectam com o passado misterioso que vivemos. O passado, na verdade, ainda está presente. Escrevo este relato no mesmo cômodo em que passei minha infância. No mesmo quarto em que era visitada. Hoje, no que chamo de escritório, sento-me de costas para a porta de madeira que foi a passagem de entrada para o meu visitante.

Sua presença não é mais sentida. Mas, mais de vinte anos depois, permaneço aqui, no mesmo apartamento. Teremos mais relatos sobre este lar que ainda habito? Continue acompanhando e verá.

Atenciosamente,

A Mulher da Pena Dourada.


Uma resposta para “O visitante”.

  1. Avatar de fullyobjectdaf492ce0e
    fullyobjectdaf492ce0e

    Escrita perfeita!

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