Se alguns adultos esvaziam suas terras em busca de uma vida melhor na capital e, com isso, jamais retornam aos seus locais de origem, outros regressam com frequência às moradas anteriores. Assim foi comigo. Inúmeros de meus finais de semana foram vivenciados no interior materno, onde as ruas eram tranquilas e as casas antigas eram predominantes. O céu límpido não era obstruído por prédios. Os idosos iam à missa. As crianças brincavam na praça. Ali, a menina que fui assumia uma infância que era, não raras vezes, limitada pelas paredes do apartamento na capital.
Apesar da grande concentração de familiares em uma única cidade, o centro da árvore genealógica era apenas um: a casa dos avós. Localizada na rua principal, a pequena murada não requeria cercas ou portões. Muito pelo contrário, convidava os transeuntes a visitarem o simpático e conhecido casal de idosos que mantinha uma rotina nas cadeiras da varanda. Dali, visualizavam o movimento e cumprimentavam os conhecidos. A casa branca com detalhes em azul claro se tornava mais colorida com as flores do jardim, também reproduzidas nos vestidos e nos pijamas da senhora mais respeitada da casa: a avó.
Senhora essa que representava a raiz de nossa família contemporânea. Raiz, inclusive, desenhada no quadro que exibia a árvore genealógica. Cada galho expunha o nome dos filhos com esposas e maridos. Cada fruto, os nomes dos netos. Dentre eles, eu. Durante meu crescimento, a vi circular pela casa e realizar suas atividades domésticas, sua vida matrimonial. “Eu queria ser enfermeira, mas tinha que me casar”. À época, um sonho era excludente do outro. E essa foi sua vida.
A cozinha, que tinha como centro uma mesa de jantar em madeira, era lar de uma senhora que cozinhava. O tanque de lavar roupa era exposto ao sol e à chuva na parte de trás da casa. Um pé de jabuticaba adornava o quintal, que também era composto por largos espaços de terra, por vezes ocupado com plantações de milho. Ali, a criança que fui não precisava de uma amiga imaginária, ela vivia. Escavava a terra em busca de fósseis de dinossauros, agia como espiã e investigava a família. Enfim, brincava.
Mas nem sempre em paz.
A alegria que me tomava ao estar ali era proporcional a alguns medos. Medos esses que desenvolvi ao conhecer a realidade da vida existente entre aqueles muros. Com os anos, não apenas a casa envelhecia, mas a própria vida de seus moradores definhava.
O menor quarto da casa tinha sua janela voltada para frente, onde o jardim rico em flores não era compatível com o sofrimento ali dominante. O cômodo abrigava um armário em madeira e uma cama alta de modelo hospitalar, o jazigo prévio do avô. Sem movimentos, sem memória e sem acesso a uma vida privada, era cuidado diariamente por uma de suas filhas. Os papéis haviam se invertido. Ao adentrar na casa pela porta principal, agora cinza e com uma janela em vidro e gradil de mesma cor, os netos eram imediatamente direcionados ao minúsculo quarto para ‘tomar a benção’.
Infantil, lembro de me questionar se não se tratava de uma encenação, um subterfúgio para atrair atenção. Minha consciência dói ao recordar de meus pensamentos impuros. “Ele poderia morrer”, pensei quando foram ao seu cuidado e não me deram a imediata atenção que desejei. Os crepúsculos eram sucessivos quando realmente aconteceu. Ele se foi. O sofrimento de minha mãe, a filha mais nova do idoso, corroía sua vivacidade. A viúva aceitou a passagem. O luto de todos os filhos escureceu o pequeno cômodo.
Agora abrigado pelo caçula da família, o quarto mantinha uma aura densa. Abusador de álcool, o atual residente da casa impunha medo com comportamentos agressivos e perversos. A cada visita, o ritual era repetido: ‘benção’. E seguia-se o forte ardor da bebida. Apenas ao amadurecer entendi suas tentativas reiteradas e sorrateiras de aproximação das crianças. Não bastasse o pequeno cômodo na frente da casa, habitava também o quarto externo da residência e que tinha porta para o quintal. Meu espaço de ser criança também havia sido tomado. “Ele poderia morrer”, repetiu-se o pensamento.
A partir de então, encaixei-me onde me cabia. Acolhida pela avó na beirada da cama de casal, ouvia relatos de nossa árvore genealógica. O quarto dos fundos pertencia somente à matriarca, agora acamada com seus pijamas antigos que marcavam os ossos dos ombros, mas sempre com as madeixas esbranquiçadas penteadas e o sorriso disponível. Essa benção era a que eu ansiava e respeitava. Ali, junto às raízes da família, me era acessível um contato com a história de pessoas que não mais se encontravam entre nós. Com sonhos interrompidos. Com tristezas permanentes que brincavam de esconde-esconde entre os cômodos da casa. As histórias eram intensas e, mal sabia eu, incompletas.
Um trisavô que assumiu o baronato e casou-se com sua escravizada. Encarcerada pelo matrimônio até o fim de seus dias? Parecia amaldiçoada. Sua filha, obrigada a se casar com alguém doze anos mais velho, ironicamente casou-se aos doze anos. “Depois da cerimônia, foi brincar de bonecas”, contava. Infância roubada. Maldições e maldições. Essa cronologia resultou na própria mulher que me contava essa história, minha avó. Resultou também naquela que me deu a vida, minha mãe. Resultou em mim. Seria eu amaldiçoada também? “Tem coisa que a gente não fala e nem mexe, minha filha”, vovó dizia. Escondia algo de mim?
O sombrio passado me esfriava a espinha, mas também me atraía. Interessada, questionava tudo e todos. Como eram, como se portavam, como falavam? Agora pré-adolescente, o colo da avó supria a curiosidade e estimulava o desejo por mais histórias. Tornei-me mais atenta ao mundo ao meu redor, seja ele material ou não. No quarto da senhora, observava o espelho manchado, a leve brisa que levantava as pesadas cortinas, a cabeceira de madeira escura e detalhada que formava círculos e colunas adornadas.
Com a avó no centro da cama, deitava-me encostada em seu ombro direito e de costas para a porta de entrada. Ali, éramos observadas. Seria o início de outras experiências? Cada vez mais vazia, a casa exibia os sinais do tempo e da tristeza. A madeira do chão rangia sem que andassem. Olhos que eu não via me acompanhavam. Pessoas que não estavam ali se faziam presentes. Presentes nas louças antigas passadas de geração em geração, nos jarros que tinham incrustados em seu barro o tempo.
O quintal já não era palco de minha imaginação, mas sim um espaço morto. Local onde depositava os olhos, mas não mais os pés. As jabuticabas apodreciam, sem que ninguém as colhesse. A capina mantinha a terra sem plantação para que não requeresse cuidado. De pé na porta da cozinha, mal descia os dois ou três degraus que abriam alas para área externa. Sem compreender bem a tristeza e o anseio que sentia, observei atentamente o fundo do quintal, onde pus os olhos em algo.
Com uma postura curva, como se cansado, algo nebuloso caminhava junto ao muro final. Acompanhei a figura preta sem reagir. Com a respiração contida, meus olhos escoltavam o ser que lentamente andava da direita para a esquerda do loteamento. No decorrer de seu percurso, passou a ser levemente encoberto pelos galhos da jabuticabeira. Incrédula, desci os degraus que há tempos não pisava para melhor visualizar a cena. Sem sequer direcionar sua face para mim, ele havia finalizado sua passagem, sem que eu pudesse compreender o exato momento do fim de sua rota. Paralisada, não atraí atenção, não gritei. Taquicárdica, aguardava minha própria mente formar uma explicação.
Tempos mais tarde, o jardim da frente se esvaziou junto às flores murchas nos pijamas da avó. Já no hospital, recusava-se a dormir, por medo da morte. Sua recusa foi em vão. A autoridade materna se foi, o luto dominou a todos novamente, a casa escureceu-se permanentemente. A raiz da família havia apodrecido. Demolida, os detalhes cinzas das janelas foram ao chão, junto aos tacos que compunham os pisos. A jabuticabeira teve sua vida interrompida. Junto a isso, ruiu também o pequeno quarto da frente. Guardiãs de enfermos e alcoólatras, as paredes encontraram seu fim. Fim este que foi ao encontro do grande quarto dos fundos, lar da matriarca da família, o laço que unia a todos sem perceber que muitos não mereciam a união.
Para os que mereciam, as histórias continuavam. Assumi o papel de minha avó e repassei aos mais jovens – e até aos mais velhos – as narrativas sobre a família. Regozijava-me com o fato de saber detalhes sobre os ancestrais que mais ninguém sabia. Até compreender que eu não sabia de tudo. As histórias estavam, de fato, incompletas. A grande mulher que tanto admirei me escondeu a mais importante e mais dolorosa delas.
Apenas mais velha esclareceram-me que minha avó iniciou sua vida adulta órfã de mãe. Assassinada, minha bisavó deixou nove filhos, dentre os quais dois ou três foram criados por aquela que me acolhia em sua cama. Em sofrimento, minha avó passou todos os dias de sua existência com o peso da ideia de que seu próprio pai havia encomendado a morte de sua mãe. O processo não concluiu dessa forma, mas era o que os comentários mantinham como verdade. O que ela entendia como verdade?
Hoje convivo com o fato de não saber. Em todas as oportunidades que teve, minha avó me protegeu dessa história. Me protegeu da verdade. Me escondeu a verdade. Ocultou o fato de que tiraram a vida de minha bisavó aos tiros. Que os projéteis atingiram tanto e com tanta agressividade seu rosto, que a morte foi buscá-la em sua própria casa. Enterrou o fato de que, em agonia, sua mãe confessou que as mulheres da família eram amaldiçoadas. Somos?
Se a maldição envolve a curiosidade quase mórbida sobre o passado, eu a confirmo. Se ela atribui a nós olhos mais sensíveis e atentos ao outro lado, ratifico-a. “Tem coisa que a gente não fala e nem mexe, minha filha”. Sinto muito, vovó, nunca foi uma escolha. Hoje entendo que a vida se apresentou para mim de forma diferente do que para outras pessoas. Que o véu não é tão encorpado diante de mim. Que os que se foram sentem atração pela minha vida e que, em certa medida, eu também sinto pela vida deles. Entendo, finalmente, que a morte havia estado ali, naquele dia no quintal, sem que ela mesma se desse conta da minha presença.
A avó se foi. A casa também. Restaram as louças, os jarros, o quadro. Do quadro, os galhos dos filhos vão morrendo um a um. Sobre os frutos, os netos repassam aos bisnetos o que sabem. Escolhemos não perpetuar os segredos. Escolhi pesquisar, investigar, registrar. Escolhi escrever. Você gostaria de se juntar a mim? Continue acompanhando e verá.
Atenciosamente,
A Mulher da Pena Dourada.

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