Você já esteve em um lugar com muitas pessoas?
E com muitos espíritos?
O lugar que retratarei hoje possui ambos. Não se trata de algo comum. Com um histórico de luta, ganância, ouro, sangue e escravidão, não seria possível imaginar diferente. Os belíssimos casarões, com as janelas de guilhotina coloridas que contrastam com a caiação branca das paredes, encobriam o sofrimento do passado. Dor daqueles que ali somente lhes era permitida a sobrevivência, quando muito.
As ruas de pedra preenchem o traçado tortuoso da cidade, gélida e nebulosa, sempre marcada pela desigualdade daqueles que viviam nas grandiosas edificações. Casarões esses que não mais exibem essas assimetrias e hoje abrigam museus, comércios e repúblicas. Ah, as repúblicas! Cheias de novos corações, as casas acomodam jovens dispostos a viverem tudo de uma vez só, como quem morreria amanhã. Pensam eles sobre quem ali morreu ontem?
Eu não saberia dizer sobre o que refletem, pois não vivi as experiências que a vida de república oferece. Mas eu sei dizer, meu caro leitor, o que eu vivi em um desses casarões. Ansiosa para conhecer o dia-a-dia de uma querida amiga, nosso grupo se reúne para um final de semana na famosa cidade das repúblicas. Lugar onde as festividades se sobrepunham ao sofrimento. Onde, literalmente, dançava-se em porões onde outros provavelmente padeceram. À época, pouco ou nada se pensava sobre isso.
Um dilúvio de meninas distribuídas em dois pavimentos. Uma chuva de expectativas, sonhos, álcool e risadas. A função prístina era somente uma: diversão. Incluída nessa egrégora, senti-me em êxtase ao poder fruir de algo inédito em um lugar tão belo. Apresentei-me para a casa e me senti… vista. Ninguém entraria ali sem ser notado.
Mas eu também notei algo. Uma certa curiosidade.
A estreita fachada não fazia jus à edificação que ficava em frente a um cemitério e que possuía mais de dez cômodos, dos quais cerca de oito abrigavam aquelas que adormeciam. Os risos suaves das meninas destoavam das paredes de pedra gélidas e da madeira bruta dos pisos. Uma casa de contrastes. Pontos de escuridão em que se contavam piadas. Espelhos onde as moças se maquiavam, mas que não exibiam o que realmente estava ali. Janelas grandes pelas quais a luz, por alguma razão, não penetrava fortemente. Naquele momento, porém, somente alegria.
E admiração. Admirei a casa como se vislumbrasse uma paisagem. Em um dos quartos, inclusive, um espetáculo era emoldurado por uma robusta janela azul e branca aberta entre as paredes amarelas: outros casarões exibiam suas fortes estruturas em meio a árvores frutíferas e um céu azul de inverno. Naquele cômodo, o último da casa, repousaríamos naquelas noites. As duas camas de solteiro eram divididas por um armário antigo de madeira. Em frente a ele, atravessando o quarto e ao lado da porta, uma escrivaninha, onde alocamos embaixo todas as malas. No meio do quarto, colchões para abrigar todo o grupo durante o repouso noturno. Tudo ideal para as jovens que pretendiam ficar mais fora do que dentro do casarão.
E, de fato, passamos boa parte do tempo explorando. Me permiti viver o momento, sem pensar no passado daquelas sinuosas e estreitas ruas; daquelas suntuosas e imponentes igrejas; daqueles cemitérios antigos e tomados por eternos habitantes. Cheios de histórias, como as casas daqueles que ali estavam sepultados. Uma das residências me vem à memória com mais facilidade. Do outro lado da rua de nossa hospedagem, esse segundo casarão era ainda mais grandioso. De pau-a-pique, a edificação era mais ancestral e transbordava mistério.
Antes, um lar de família. Hoje, uma república. Um porão convertido em boate. Mas ali, quem dançava era a morte. Com um vento gelado e cortante que não vinha de lugar algum, o baixo cômodo trazia a escuridão em seu âmago, de forma que luz alguma ali o clarearia totalmente. Buracos na parede que abriam alas para túneis que levavam ao enorme quintal. Alçapões no teto que concediam entrada para o chão dos armários nos quartos do andar superior. Uma casa de labirintos. Uma confusão de paredes, de sensações, de cômodos e de pessoas. Muitas pessoas.
Ali nos reunimos em determinada noite para fazer o que os jovens dali faziam de melhor: viviam. Sem parecer se preocuparem com as paredes impregnadas de sofrimento, bebiam, jogavam, conversavam e dançavam. Tentei fazer o mesmo, mas fui impedida. Não por qualquer objeção moral ou peso na consciência. Fui atacada fortemente por uma tenebrosa dor de cabeça que me infligiu grande sofrimento. Não havia medicação que auxiliasse na minha melhora, sendo necessária minha retirada. Deveria repousar. Despedi-me do divertido grupo de colegas e fui.
Acompanhada de minha amiga, bastou que atravessássemos a rua de pedras escorregadias e já estávamos na porta principal da belíssima casa gélida que me abrigava. As inúmeras chaves esbarravam-se entre si enquanto as fechaduras eram destrancadas, originando uma suave música que funcionava como uma senha para abertura da porta. No hall de entrada, um código que desconheço era digitado para desativar o alarme que assegurava a proteção da edificação e de tudo que nela estava guardado. ‘Piiiiii’. Alarme desligado por um estrondoso apito.
- Você está mesmo bem? Não quer que fique aqui com você? – disse ela.
- Fique tranquila, vai ser o tempo de deitar e dormir. Só preciso descansar mesmo. – respondi.
Piiiiii. Alarme acionado novamente. Um beijo no rosto e minha amiga se foi. Havia alertado-me que, de acordo com as rígidas regras da república, não poderia deixar as chaves comigo. Não questionei e à época, sinceramente, não me preocupei. Meu único desejo era repousar a cabeça que tanto pesava no travesseiro e esperar que o dia amanhecesse. Hoje, penso na insanidade de me permitir ficar trancada em um casarão do século XIX sozinha madrugada a fora. No momento, subi os degraus de madeira que rangiam a cada pisada em direção ao que seria o meu quarto.
No corredor do andar superior, localizei algum dos apagadores, acendi as luzes que consegui e direcionei-me ao último quarto. Agachei-me para ter acesso ao espaço embaixo da escrivaninha, onde estava alocada minha mala. Dali, recolhi os itens que precisaria para ir ao banheiro e fiz minha rotina noturna normalmente. Hoje, surpreendo-me com a tranquilidade com que tratei a situação. A água congelante limpou a maquiagem do meu cansado rosto e o ar algente tocou meu corpo quando me despi para vestir o pijama. Com frio, corri pelo corredor, cuja luz deixei acesa, até retornar ao meu cômodo de descanso.
Organizei o que precisava, apaguei a luz e deitei-me em um dos colchões cuidadosamente preparados no chão no meio do quarto. Descontraí aos poucos os ombros conforme fui me aconchegando e esquentando as extremidades quase petrificadas do corpo. As mãos juntas e encolhidas na curva do pescoço. As pernas flexionadas com os joelhos aninhados contra a barriga. A cabeça, finalmente, acostada no suave travesseiro que havia levado de casa. Quase como se em uma meditação, concentrei-me em descansar a mente para tentar aliviar a dor.
O silêncio era interrompido somente com as risadas do grupo que há pouco me acolheu. As casas tão próximas, uma quase que de frente a outra, permitiam que eu ouvisse, se prestasse a devida atenção, até as conversas e piadas do agrupamento. Senti-me segura. Eu estava a uma ligação ou a um grito de distância de todos. A luz do corredor estava acesa. Poderia adormecer em paz. E assim entrei em determinado estado de transe que não posso afirmar quanto tempo durou. Acho que adormeci ao deleitante som daquele grupo.
De costas para a entrada do quarto, ouvi um ‘nhhhhaaaac’ quando a velha porta de madeira se moveu para a passagem de alguém.
Leves e cuidadosos passos. Quase inaudíveis barulhos de deslocamento do corpo que se movia pelo pequeno espaço restante no cômodo, entre camas, colchões e escrivaninha. Praticamente imperceptíveis, distingui os sons dos remexidos nas malas. Era uma de minhas amigas? Procurava por seu pijama? Podia acender a luz, oras. Eu estava acordada de qualquer forma. Já melhor da dor de cabeça, virei-me ainda deitada para o restante do quarto, a fim de dizer isso a ela e perguntar como havia sido a noite.
Não havia ninguém.
Aguardei alguns instantes para que minha visão se adaptasse à escuridão. Ao menos assim as coisas tomariam a devida forma. Talvez já tivesse se deitado? Não. Ninguém. Nada no cômodo parecia diferente. A não ser minha respiração. Ofegante, olhei novamente para as camas. Devidamente arrumadas, preparadas para receberem o restante do grupo, nenhuma coberta havia sido mexida, nenhum travesseiro com marcas de uso. Apoiada com as mãos no colchão, olhei para a porta. Fechada. A estreita linha embaixo dela, todavia, exibia uma diferença. Totalmente escura, revelava que as luzes do corredor não estavam acesas.
Mas eu as deixei acesas. Não deixei? Tenho convicção que sim. Quem se deitaria sozinha em um quarto desconhecido sem deixar, pelo menos, a luz do corredor acesa?! Eu com certeza não.
Deitei-me novamente, embrulhando-me nas cobertas como se a elas pudesse me fundir. Em posição fetal, tentei me concentrar em nada. Conseguiria entrar em um estado meditativo novamente? Ouvi, como quando deitei-me pela primeira vez, as conversas e risadas da casa vizinha. As vozes fluíam naturalmente do outro lado da rua. Para eles, nada havia acontecido. Foquei em distinguir as falas e identifiquei tranquilamente uma de minhas amigas. Normalmente, todos contavam casos e riam.
Não haviam estado aqui. Até porque, se tivessem estado, como eu não ouviria o ensurdecedor ‘piiiiii’ do alarme? Para desativar, ouviria uma vez. Mesmo se estivesse dormindo, acordaria com o segundo ‘piiiiii’ que ativaria novamente o dispositivo. Lamentavelmente, quem já viveu experiências como as minhas, nunca dorme plenamente. Organizei, como tudo na minha vida, meus pensamentos e as possibilidades. Não encontrei nenhuma explicação plausível. Quem quer que tenha entrado no quarto, não entrou no casarão depois de mim. Já estava nele. Acho que pertencia a ele.
Mantive-me em alerta. Atenta a todo e qualquer barulho além das vozes na edificação vizinha. Nada. Acredito que tenha entrado em um estado de quase sono novamente… Com o passar do tempo, as vozes foram se acalmando e, em seguida, se aproximando novamente. Isso me gerou estranheza. De repente, sons mais altos e mais próximos. Minhas amigas estavam chegando.
Chaves. ‘Piiiiii’. Conversas e risos. Passos. Subindo as escadas. Rangidos. Conversas. Risos. Acenderam as luzes do corredor superior, como pude ver pela fresta debaixo da porta. Alto. Mais alto. Mais alto. Mais baixo. Mais baixo. Baixo. Tentaram reduzir o barulho ao chegarem na porta do quarto. ‘Nhhhhaaaac’. Abriram a porta. Os sons eram, portanto, plenamente identificáveis. Pude comprovar, naquele momento, que aquela era uma casa barulhenta em meio ao silêncio da madrugada. Um casarão que denunciava qualquer coisa e qualquer um.
- Oi! – eu disse.
- Ah, ela está acordada. – disse uma delas. Posso acender a luz?
Confirmei e assim fizeram. Acenderam a luz e foram entrando. Embriagadas e rindo de situações que não presenciei, perguntaram se eu estava melhor. Disse que sim, havia descansado um pouco. Espremendo-se entre os espaços do quarto que não estavam ocupados pelos colchões e malas, observei como foram se ajeitando, pegando os pijamas e retirando os sapatos. Atentei-me aos barulhos que faziam enquanto se acomodavam. Era parecido, mas diferente. Não tentavam silenciar-se, então todos os sons eram amplificados.
Esperançosa de que dissessem sim, questionei se alguém tinha voltado à casa depois que eu tinha me deitado. Talvez tivessem esquecido algo. Um casaco, talvez? A resposta foi negativa. Todas haviam permanecido no mesmo lugar e retornaram apenas agora, todas juntas. Relatei o ocorrido e fui recebida com repetidos “Credo!”, “Nossa Senhora!”, “Meu Deus!”. A explicação que eu gostaria de ouvir viria da minha amiga residente da casa, obviamente. Mas essa se manteve inerte. “É, amiga, vamos dormir.” ou algo do gênero, foi sua resposta.
O final de semana seguiu. Fiz questão de me manter cercada de pessoas e não vivenciei mais nada em concreto. Lembro-me de observar a casa com mais atenção do que antes. Não somente admirá-la. Reparei-a como quem procura algo. Busquei com meus olhos uma sombra que fosse, dei a chance para que ela se mostrasse. Nada. “Ela”, pois sei que era uma mulher. Desenvolvi ao longo dos anos a habilidade de distinguir o gênero dos seres que se manifestam para mim, bem como suas intenções. Mas aquela mulher, que se mostrou um tanto quanto curiosa, não se revelou mais. Sentiu-se à vontade o suficiente para verificar meus pertences e, depois, ocultou-se.
Fomos embora com boas lembranças. A cidade é linda. As pessoas sabem se divertir. Desatentas e despreocupadas com o histórico do lugar, os jovens seguem suas vidas nas repúblicas, realmente como se fossem morrer amanhã. Mas não posso mais afirmar que não pensam nos que morreram ontem. Para escrever este relato, encontrei-me com minha amiga que morou naquele casarão. Haviam se passado quase dez anos! Ela se lembraria?
“Não vou olhar para isso, para isso não crescer”. Ela me contou que era o que dizia para si mesma sempre que alguém relatava algo sobre a casa. Eu não havia sido a primeira. E nem a última. Uma casa de tantos anos, em uma cidade com tanta história, não poderia não ter uma carga de mistério. Na tentativa de se proteger e de não vivenciar experiências semelhantes, minha amiga tentou ignorar o que muitos presenciaram. Ao tapar os ouvidos para os tormentos vividos pelas colegas, especialmente naquele quarto, ela se blindava. Agora, anos mais tarde, disse entender que o lugar merecia mais respeito.
A república permanece. A cada semestre, novos corações. Outras jovens meninas ansiosas para viverem uma vida em uma das cidades mais históricas do país. No final do corredor do segundo andar, o quarto mais gélido da casa – agora pintado de branco – acolhe as moradoras com sua bela vista pela janela de guilhotina. Seria a mulher um espírito curioso pela vida das moças que por ali passam? Interessa-se pelos pertences delas? Apega-se a aquele quarto por qual razão?
Esses questionamentos, caro leitor, não posso responder. Estive, de fato, naquele casarão algumas vezes depois desse ocorrido. Mas não naquele cômodo. Será que aquele gélido quarto, onde uma mulher curiosa reside, ainda trará mais mistérios? Continue acompanhando e verá.
Até breve,
A Mulher da Pena Dourada.

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