Sempre fui obcecada por minha avó materna. Não me recordo em detalhes do meu avô materno, seu marido; e muito menos do paterno. Por mais que tenha convivido com minha avó paterna por muito mais tempo – ela foi a última a falecer -, era a materna que tinha a maior parte do meu coração.
Lembro-me de frequentar sua casa no interior e ser apaixonada por acompanhar toda sua vida [Leia o relato “A casa da avó” para saber mais]. Sentia que ela me deixava ser quem eu era e, em certa medida, até me estimulava, mesmo naquilo que ela não concordasse. Como era o caso das histórias.
Ela adorava me contar causos e eu amava ouvi-los. Por mais que essa dinâmica funcionasse, existiam limites. Certas perguntas não deviam ser feitas. Atrevida, mesmo assim eu questionava. E minha avó, quando entendia necessário, mantinha-se em silêncio. Alguns detalhes, se desenterrados, poderiam trazer sofrimento e, por isso, eram mantidos sob a terra, como um corpo em um caixão já sepultado.
Qual corpo era esse eu tive conhecimento somente mais tarde. Se você leu o relato “A casa da avó”, sabe a que me refiro.
O amor que tenho por aquela senhora magra, de cabelos brancos e óculos grandes me fez aprofundar em outros interesses que entendo serem intrínsecos a mim: a história. A trajetória da minha família, especialmente a materna, fez crescer em minh’alma um desejo afetuoso e, contraditoriamente, doentio, quase que dolorido, de compreender mais sobre o passado de quem me deu origem.
Não me refiro somente à origem direta, isto é, meus genitores. Por mais interessante que sejam, ao que parece, meu ser almeja por algo mais profundo. Por pessoas que não estão mais entre nós e que se foram com algo que ainda precisa ser dito. Acredito que sou a pessoa escolhida para falar por eles. Sou o resultado de gerações e gerações de mulheres que não puderam se posicionar, que foram impedidas de escolher suas vidas. Por isso, escolhi escrever.
Escrevo aquilo que chamo de “O Inventário”. A história da minha família está sendo redigida já há muitos anos, pouco a pouco, com base em documentos históricos, fotografias antigas e relatos orais de todos aqueles que apoiam minha jornada. Por mais que o contexto geral seja o mesmo, as experiências pessoais divergem em pontos sensíveis. Amores e rancores. Laços e inimizades. Todas as experiências em uma só família.
Busco escrever com certa imparcialidade. Exibir datas e acontecimentos de forma direta e transparente. As fotografias, por mais que poucas, são chocantes. Como posso parecer tanto com uma mulher, minha bisavó, que nasceu em 1888? Sei que a genética explica esse fato. Mas como posso me sentir tão conectada com alguém que sequer conheci? Será que somos parecidas em nossas personalidades também? Acho que nunca saberei.
Seguindo toda a curiosidade que habita o meu ser desde que me entendo como ser humano, coleto tudo que minha família tem sobre as pessoas do meu interesse. Trato como tesouros tudo aquilo que me é entregue, seja uma fotografia, um objeto pessoal ou um relato que ressoa em minha mente como uma música. Por saberem do meu amor por tudo isso, todos depositam sua confiança em mim. Confiam que relatarei as experiências com respeito. Creem que cuidarei de tudo que me é trazido como se fosse meu.
E assim eu faço. Eu juro que faço.
Tento armazenar devidamente tudo que todos possuem sobre nossos antepassados. A grande guardiã sempre foi minha mãe. Herdei dela esse cuidado com o passado. A maior parte das fotografias, dos documentos e até do conhecimento sobre as linhagens, permanecia com ela. Eu fui a criança curiosa que ela também foi. Por valorizar tanto essa fatia de nossa história, ela mantém tudo sob sua guarda. Meu objetivo nunca foi, portanto, tomar para mim esses objetos. Até porque, eu já sabia que os herdaria. No momento, buscava fotografá-los, digitalizá-los e manter cópias.
Na mesma época do meu estágio [leia “Os três acontecimentos – Parte II” para saber mais], solicitei à minha mãe as fotos mais antigas que ela possuísse de seus pais. Em determinada noite, ela buscou uma pasta antiga e verde, que por pouco não poderia ser fechada, e me mostrou. Em meio a dezenas de documentos, haviam duas fotos particularmente atraentes aos meus olhos. Uma de meu avô e outra de minha avó, ambos bem jovens, talvez em seus dezoito ou vinte anos. As imagens, ainda em preto e branco, remontavam a uma época em que as mulheres usavam vestidos e pérolas; em que os homens usavam ternos independentemente do propósito e exibiam sua masculinidade por bigodes grossos e muito bem aparados. Simplesmente porque era o ideal. Para mim, era tudo magnífico.
Em meio a tantas outras coisas, dei graças aos céus por ter a ideia de digitalizar tudo. Por mais valorosos que os itens fossem para minha mãe, ela os dispensava somente os cuidados que estavam ao seu alcance. No momento, era manter as fotografias em uma pasta, cujos elásticos quase arrebentavam pelo volume de itens armazenados. Com minha natural soberba, pensei que eu cuidaria melhor de tudo aquilo. Por isso, separei as fotografias e coloquei-as em um envelope pardo. Utilizaria o scanner da impressora do trabalho para digitalizá-las e as devolveria. Simples.
Organizada como sempre fui, inclui essa tarefa em uma lista cuidadosamente escrita à mão e coloquei o envelope junto a outros papeis que representavam outras pendências: xerox de capítulos de livros que precisava ler, um documento impresso do trabalho que requeria minha análise. O envelope embaixo, visto que maior, e os demais por cima. Todos do lado direito da minha escrivaninha branca. [Leia o relato “Os três acontecimentos – Parte I” para saber mais sobre esse espaço].
Os dias se passaram e as demandas surgiam e eram cumpridas. Urgências passavam a ocupar o topo da lista de afazeres enquanto as demais pendências aguardavam seu momento de execução. Lembro-me de levar o envelope para o trabalho e sequer ter tempo de digitalizá-lo. Naquela tarde, inclusive, passei na farmácia, que localizava-se a poucos metros do prédio institucional e recordo-me de olhar frustrada para ele, junto aos meus demais pertences, enquanto a atendente finalizava os meus itens. “Como não consegui fazer isso ainda?!”.
Paguei e corri para o ponto de ônibus. Já estava atrasada e chegaria em casa com o sol já caindo. Quando isso acontecia, descia a rua correndo, com a mochila batendo nas costas e com as mãos ocupadas. Livros, tablet, papéis, marmita e o pote de brigadeiros que vendia na faculdade. Sabia que o dia havia sido bom quando a mochila estava mais vazia. Isso significava que havia vendido todos os doces e que, por isso, a carga estava mais leve – literalmente. Não me recordo de nada sobre isso, somente que queria chegar em casa logo. E cheguei.
Por mais exausta que estivesse, tinha como prioridade organizar tudo que me competia antes de descansar, inclusive atualizar a lista de pendências para o dia seguinte. A digitalização permanecia ali. Por mais simples que fosse, ao notar que não conseguiria concretizar isso tão cedo, retornei o envelope ao seu local de espera e continuei meu ritual noturno.
Os dias passaram.
Os afazeres acalmaram.
Já de férias da faculdade, teve início também o recesso forense. Finalmente posso ter uma pausa nos afazeres estudantis e do estágio e dar prosseguimento ao restante da minha vida que, até aquele momento, estava conturbada com inúmeras pendências e tensa com os últimos acontecimentos [Leia Os três acontecimentos – Parte I e II]. Poderia, então, me dedicar ao que me preenchia de dentro para fora: a história da minha família.
Havia uma papelaria relativamente perto da minha casa, bastava que eu descesse algumas ruas e poderia finalmente digitalizar as fotografias que tanto ansiava. Em determinado dia, me arrumei e calcei uma sapatilha vermelha com um laço em cada ponta. Que meiga. Separei o dinheiro, algumas moedas bastariam. Coloquei-as em uma bolsinha preta de treliça que ganhei em uma prenda na festa junina. Ao chegar diante da minha escrivaninha… onde estava o envelope pardo?
Corri os olhos em tudo que estava sobre minha mesa. Poucos itens. O envelope não estava em qualquer lugar. Embaixo da escrivaninha, atrás dela, nada. Embaixo da cama, nada. Senti como se meu coração pulsasse na minha garganta e, como de costume, recolhi os ombros quase que junto às orelhas. O quarto feminino, com as paredes pintadas em um rosa bebê, não combinava com a desconfiança e tensão que eu exalava.
Tentando me acalmar sozinha, pensei que o óbvio seria que o item estivesse na minha bolsa de faculdade. Seria estranho, visto que a esvaziei quando o semestre acabou, mas… Em um ato bruto, abri a porta do armário e peguei-a. Com somente um terço pequeno de cor bordô no bolso interno e alguns medicamentos, a bolsa se provou inútil ao meu propósito. Não estava ali.
Revirei o quarto. Abri todas as gavetas, passei por todos os cabides. Insana, olhei em meio às roupas íntimas. Vai saber! Com as lágrimas contidas nos olhos, vistoriava os locais incessantemente. Meu quarto era pequeno. Uma escrivaninha, uma cama, um guarda roupa de duas portas, uma prateleira com livros – os quais eu folheei também. Nada.
Não era do meu costume manter meus objetos pessoais em outros locais da residência. A casa não era minha, somente meu quarto. Mesmo assim, andei por todos os cômodos em agonia e com os olhos atentos a qualquer coisa que se parecesse um envelope pardo. Meus pais nunca foram pessoas organizadas. Mesmo assim, busquei nos locais mais prováveis e nada.
Eu havia deixado o envelope no trabalho? Lembro-me do último dia. Eu estava com ele. Mas passei na farmácia. Havia deixado no balcão? Mas eu estava com ele no ônibus. Esqueci no banco em que me sentei? Mas eu o coloquei na escrivaninha. Meu Deus. Aconteceu novamente. Em um misto de medo, tristeza e ódio, me joguei na cama e cobri o rosto com os braços. Chorei.
Chorei como se tivessem arrancado algum dos meus órgãos. Como se sentisse dor física.
Talvez, muito talvez, minha mãe tivesse pego o envelope. Não era de seu feitio entrar em meu quarto e mexer em minhas coisas. Sistemática, eu havia estabelecido limites claros sobre o único espaço que podia chamar de “meu” na casa. Mesmo assim, ainda havia a chance. Enxuguei o rosto rapidamente e em questão de segundos cheguei até minha mãe e a questionei. Intimamente, acho que rezei para que ela tivesse invadido minha privacidade.
“Eu não!”.
Pronto, era o início da guerra.
As frases saíram atropeladas, o tom de voz variava e deu-se início à correria. Direcionando-se até meu quarto, ela dizia que não seria possível que as fotos tivessem simplesmente sumido. Fotos não somem. “Ah, mas você vai achar!”. Quem cresceu com qualquer figura materna sabe com que tom de voz essa fala foi dita. Expliquei para ela que eu já havia procurado em todos os locais. Sabia que não as havia deixado no trabalho e não estavam no meu quarto.
A saga começou. Reviramos tudo. Todas as gavetas e prateleiras da casa. Atrás de todos os móveis. Reparei nos olhos tristes de minha mãe enquanto ela buscava um tesouro que talvez poucos compreendam a importância. Com um nó na garganta e peso na consciência, eu procurava minuciosamente pelo envelope e pelas fotos esparsas em locais que elas sequer caberiam.
Eu as havia perdido. Mesmo com minha irmã em minha defesa, minha mãe me olhava como se estivesse diante de uma assassina. “A senhora sabe do cuidado que ela tem com isso, mãe! Ela não teria simplesmente perdido as fotos”. Não adiantava, a tristeza era tamanha que se converteu em raiva.
Ele havia ganhado.
Já à noite no meu quarto, senti que não estava sozinha. A janela aberta não era suficiente para que a brisa entrasse, parecia que o tempo havia parado. Apesar de estar na capital, as sensações da casa da minha avó no interior me dominavam. Olhos sobre mim. Um tumulto de pessoas. Sem que eu visse ninguém. Uma confusão de seres. Adormeci às lágrimas.
Acordei e visualizei, pelos olhos inchados de chorar, o lustre dourado e antigo do meu quarto. Gosto do passado e o passado gosta de mim. Por isso, tentando me conectar com meus antepassados, tentei me provar uma mulher do bem. Disse em voz alta que não usaria as fotografias para fins maliciosos, que queria somente contar a história da família, a nossa história. Eu sei que me ouviram. Mas por alguma razão que não entendo, nunca me responderam. Eu sei que sabem das minhas boas intenções. Não sabem?
Os dias, as semanas e os meses passaram.
Caro leitor, eu não perdi as fotografias. Elas foram tiradas de mim. Parte da memória da minha árvore genealógica foi subitamente arrancada de quem mais se importava com ela. As fotografias não se perderam. Alguém decidiu que eu não devia mais tê-las. Algum antepassado não queria esse cuidado com a nossa história familiar? Ofende-se com minha curiosidade? Tem receio que, continuando a coletar fotografias e documentos, eu encontre algo indesejado? Ou só queria me enlouquecer?
Ainda não encontrei essas respostas. Mas independentemente dessa perda, continuo a escrever a história da minha família. O capítulo dos meus avós maternos está em andamento. Escrevo sobre como minha avó perdeu a mãe cedo, em circunstâncias trágicas; sobre como se casou com meu avô por convenção social e não pôde estudar. Escrevo porque acredito que isso pode ser capaz de fechar feridas. Ao mesmo tempo, acho que algo me ronda porque eu escrevo. Já incluí fotografias, mas não aquelas. Eu nunca mais as vi.
Até breve,
A Mulher da Pena Dourada

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