Marcas reais

Acredito que eu tenha uma certa aversão a mudanças. Teimo em manter minha vida e tudo que a compõe “como sempre foi”. Alguns acontecimentos, entretanto, me forçaram – ou me ajudaram – a alcançar certa flexibilidade, mesmo que rasa e tímida. Se você acompanhou outros relatos, sabe que abandonei o meu quarto de infância e assumi outro entre os 17 ou 18 anos de idade.

O antigo cômodo, hoje meu escritório, me remetia a um assombro escuro e inexplicável. O novo quarto, que nada mais era do que a pretérita sala de televisão pintada de rosa bebê, era minha chance de recomeçar. No primeiro, foi necessário sepultar minha infância. No segundo, pude plantar flores – mesmo que fossem de plástico. Depositei larga confiança nas paredes com cheiro de tinta. Imaginei uma redoma de vidro protetora ao redor do cômodo que, infelizmente – e previsivelmente – não zelou tanto assim por mim. 

A partir de algum ponto, que sou incapaz de esclarecer qual, as minhas noites de sono no quarto rosa retornaram ao meu estágio infantil: eu mal dormia. Acordava insistentemente todas as noites. Assustada e taquicárdica, despertava pavorosamente sem saber onde estava. Sentia que minha consciência se delongava alguns milésimos de segundos até se conectar ao meu corpo. Até voltar ao meu corpo? Onde ela estava eu não sei, mas eu quando finalmente voltava a habitar a mim mesma, soltava o ar e percebia que estava em casa. 

Mas isso não era um grande alívio. O relógio prateado e moderno que eu havia colocado na escrivaninha e que contrastava com os lustres dourados e antigos do quarto, não cumpria sua função: eu não o olhava, evitando verificar onde os ponteiros estariam. Se estivessem, a cada madrugada que se seguia, marcando três horas, eu teria certeza: era uma maldição. Por isso, passei a ignorar o horário do incômodo despertar que me atormentava e tentava destinar minha atenção para somente um objetivo: atrair o sono. Não funcionava. 

Me sentia uma criança novamente quando percebia que retornava aos velhos hábitos que tanto faziam meu corpo e minha mente sofrerem. Encolhendo os ombros, petrificava todos os músculos no meu corpo, tornando-me um pequeno feto em meio ao cobertor que, independente do calor, deveria satisfazer a função de me envolver por inteiro. Era um muro protetor. Levava o grosso tecido até minha boca e nariz, cobrindo-os e fazendo com que a respiração se restringisse àquele casulo que eu havia criado. O ar quente circulava por aquele pequeno espaço e gerava um incômodo que, por proteção, eu ignorava. 

Voltei a agir, instintivamente, como se algo me observasse. Se eu me mantivesse quieta, talvez ele acreditaria que estou dormindo, eu pensava. Era uma tola novamente. Tola ao ponto de não conseguir, por puro medo, esticar os braços para alcançar o celular que estava sobre minha escrivaninha. Se eu me movesse, ele me notaria ainda mais. Os ombros mais altos, mais encolhidos, mais rígidos e mais doloridos a cada dia. Não eram somente os hábitos visíveis que haviam retornado. Minha rotina mental também fez seu caminho de volta à infância.

Em meio a tensão da madrugada, eu aguçava os ouvidos para notar minuciosamente todo e qualquer barulho que pudesse me circundar. Algum cachorro latia ao fundo e um galo cismava em cantar. O relógio do corredor, distante de mim somente por um porta fechada, fazia um tic-tac mais suave do que o do meu quarto, mas mesmo assim audível. A chuva, quando caía de leste a oeste, batia intensamente na janela que, por seus muitos anos de existência, deixava acumular, assim como hoje em dia, um pouco de água no peitoril interno. Quando os primeiros sinais da alvorada surgiam, a mente cansada me dava permissão para um cochilo que findaria pouco antes das cinco da manhã, hora que meu despertador tocava. 

Os olhos pesados, quase que doloridos, e as intensas olheiras abaixo deles eram a primeira visão que eu tinha ao me olhar no espelho. Hoje percebo… eu era tão jovem e estava tão exausta. Sinto pena daquela garota. Aquela menina que se achava tão adulta, mas que sentia medos tão infantis. Olhava ao meu redor, verificando o quarto lentamente, e nada havia mudado. Ao abrir as cortinas e a janela, permitia que o sol e o tempo cumprissem seu papel e secassem a água acumulada durante os temporais da madrugada. A minha função, da mesma forma, era seguir o meu dia. 

E assim eu fazia. Ignorava os tormentos da noite e lidava com o cansaço durante o dia. O desânimo ao sair de caso era reflexo disso. As notas de algumas disciplinas da faculdade exibiam as consequências do sono e da falta de concentração nos estudos. Lembro-me que a partir de determinado ponto, por mais estranho que isso fosse a mim, isso não me importava mais. Eu só queria dormir. Estava exausta e precisava descansar. Mas isso não aconteceria tão cedo.

De repente, rompendo a madrugada, ele estava bem próximo ao meu rosto. Sua respiração se misturava com a minha como quando dois amantes dormem com os rostos de frente um ao outro. Mas eu não o amava. Eu sequer sabia quem ele era. Me observava de forma tão próxima e com tamanha intensidade que, com a consciência ainda voltando ao meu corpo, já me dava conta de que ele estava ali. Ousado. Mais perverso do que na minha infância. Um sopro mais forte no meu rosto. 

Abri os olhos. 

Nada. Eu não vi absolutamente nada. Ajustei a visão para o escuro e me dei conta de que estava no meu quarto. O meu tórax se movimentava em uma velocidade impressionante e consigo imaginar que as trevas das minhas pupilas haviam tomado todo o castanho dos meus olhos. Taquicárdica, me esqueci que devia me manter silenciosa e quieta; sentei na cama rapidamente e corri o olhar pelo quarto iluminado pela lua e reflexos dos postes acesos. Já há algumas semanas eu não dormia com a cortina totalmente fechada. A escuridão era demais. Naquela noite, em especial, a escuridão havia retornado. 

Os lençois, marcados pelo suor, estavam desajeitados pelas marcas dos meus movimentos noturnos. Conversando mentalmente comigo mesma, me convenci de que havia sido um sonho. Um terrível pesadelo. O cansaço das noites anteriores estavam, provavelmente, me causando algum tipo de delírio noturno. Na tentativa de racionalizar, tentei ignorar o fato de que, como eu já sabia há algum tempo, o véu não era tão espesso para mim. O mundo espiritual me alcançava mais facilmente do que para outras pessoas. Que sorte a delas. 

Chorando, rezei para conseguir dormir. 

Cochilei até o céu exibir uma mistura distorcida de laranja com tons rosados. 

Mais um dia, exausta. Cada vez mais impaciente, lembro-me de não conseguir sequer manter boas relações com as pessoas do meu convívio. Encontrava-me tão nervosa que a irritação exalava do meu ser e me fazia querer distância até de quem eu mais amava. Mas eu não poderia me dar a esse luxo. Em casa, sem minha irmã na cama ou no quarto ao lado, eu precisava de alguma companhia. Tentando regressar à minha personalidade naturalmente determinada, notifiquei aos meus pais que dormiria com eles algumas noites. Simples. Eu não pedi, eu avisei. Com uma leve expressão de deboche, meu pai riu e brincou que eu “levaria a assombração” até eles. Minha mãe, gentilmente ofereceu o quarto por quantas noites eu quisesse. 

Ao escurecer, aquela moça de 20 e poucos anos, que hoje enxergo como uma menina, adentrou na porta do cômodo destinado ao casal e visualizou a cena que já estava acostumada. As paredes, pintadas de um amarelo claro após a reforma, eram decoradas com um lindo gesso branco que circundava todo o teto e dava destaque ao lustre dourado idêntico ao que iluminava quase todos os quartos. A cabeceira de cor amendoada exibia volutas decorativas e recortes horizontais próprios de uma época passada. Ao subir o olhar, um crucifixo fino e pesado que reforçava a lembrança de um sofrimento bem acima de tudo e todos. Talvez ele me protegesse.

Do lado esquerdo, um armário grande exibia suas quatro portas de madeira que combinavam com o criado-mudo do pai, localizado daquele mesmo lado. Na parede oposta, a janela antiga e que já não vedava toda a brisa era distante somente alguns passos do criado-mudo da mãe e do seu lado da cama. Naquele espaço eu dormiria. Carreguei meu fino e deteriorado colchão à suíte, posicionando-o nesse lado direito do cômodo. 

Satisfeita, ajeitei minha roupa de cama e me preparei para a noite que, eu tinha certeza, seria a mais bem dormida em muitos meses. Acho que apaguei. Sempre tive o hábito de dormir – ou tentar dormir, pelo menos – mais cedo do que todos da casa e naquela noite não foi diferente. Eu havia deitado bem antes dos meus pais e sequer me dei conta de quando eles se destinaram ao repouso noturno. Somente soube que haviam deitado quando… acordei de madrugada. 

Diferentemente das demais noites, não acordei em meio ao desespero. Acordei, inclusive, de forma um tanto quanto suave. Mas algo não se encaixava. Ainda deitada, alguma sensação se esgueirava ao meu redor sem que eu a distinguisse perfeitamente. Como quando você sente alguém te olhando, sem saber exatamente de onde, e ao olhar para o lado, percebe que alguém te observava sim. Entendi. Era essa a sensação. 

Deitada no chão do lado direito do quarto, senti que algo se aproximava, do outro lado da cama de casal, pela porta do lado esquerdo do cômodo. Como uma mãe que estica o pescoço para verificar silenciosamente se o bebê já adormeceu, percebi que alguém vinha suavemente em minha direção. Repentinamente e sem raciocinar, interrompi a branda aproximação do quer que fosse e me sentei bruscamente no colchão. Senti que interrompi algo. Levantei-me suavemente do meu berço improvisado e visualizei meus pais dormindo normalmente. Mais uma vez, não me arrisquei a checar as horas. 

Não me recordo depois de quantos dias reuni coragem para retornar ao meu quarto, talvez dois ou três. Meus sentimentos, apesar de tudo, estavam mais tranquilos e eu havia, finalmente, recuperado um pouco do meu sono. Como isso fez diferença. Sem ele, eu dormia melhor. Como eu dormia melhor, ele não se sentia tão confortável a se aproximar de mim. Me parecia um ciclo confuso de tormentas, provavelmente causadas por medos de infância e estresse. Eram pesadelos, conclui. Eu acreditava, sim, no mundo espiritual que me circundava, mas, talvez, algumas coisas eram simplesmente… nada. Pensamentos. E não acontecimentos concretos.

Acho que, acidentalmente, isso o desafiou.

Certa noite, já no meu quarto, o “concreto” aconteceu. A sensação de um som veio como o rompante de um tambor cerimonial, daqueles que anunciam jogos macabros e arrancam o corpo do sonho. Mas não havia sonho. E meu corpo não foi arrancado. Somente a minha consciência. Naquela madrugada, apenas minha consciência despertou. 

Os olhos não abriam, por mais força que eu empregasse. Sentia que as pálpebras tremiam e que minha íris se movimentava rapidamente de um lado para o outro, mas algo me forçava a manter as janelas de minh’alma fechadas. O corpo, em completa agonia, não se mexia. Deitada de barriga para cima, meus braços estavam com os cotovelos dobrados e guiavam minhas mãos, com as palmas voltadas para o teto, à altura das minhas orelhas. As tentativas de me movimentar eram frustradas e cada centímetro da minha pele estremecia como se minha força resultasse em um tremor por todo o tecido. Dessa vez, não somente os ombros estavam encolhidos e enrijecidos, mas cada músculo do meu ser. 

Tentava falar e pedir socorro. Se conseguisse gritar, meus pais acordariam e viriam ao meu resgate. Como com os lábios costurados um no outro, não conseguia formar palavras ou sequer movimentar a língua. “MMMMMMMMM!” era o som que eu, pelo menos em minha mente, conseguia emitir. Provavelmente não muito alto, pois ninguém veio ao meu socorro.

Em meio ao terror, algo pior quis se mostrar presente. Senti no rumo do meu umbigo e virilha como se alguém pesado sentasse por cima do meu frágil corpo. Sem qualquer piedade, a encorpada figura me afundava em minha própria cama, causando dor nos órgãos do meu tronco. Não bastasse isso, senti que segurava meus pulsos contra o travesseiro, forçando-os para baixo como se quisesse me submergir no colchão até ultrapassar as estruturas que formavam a base do móvel. “MMMMMMMMM!”, eu tentava gritar com os lábios prensados. 

A dor era tamanha que sentia que queria chorar. 

Mas não conseguia. Nem esse direito eu tinha.

Como se em um ato final teatral, senti o que já me era familiar: um sopro quente e denso em meu rosto. “GHHÁÁÁÁÁÁÁÁÁ!” eu emiti em meio a um suspiro profundo, como se ressurgisse da água após uma tentativa de afogamento. Exausta, como se tivesse lutado pela minha própria vida, tentava recuperar o fôlego e me estabilizar. Sentada na cama, todo o meu corpo tremia e meus olhos iam de um lado para o outro sem, contudo, enxergar coisa alguma. O que havia sido aquilo? Não conseguia raciocinar, formar palavras ou me levantar. Passei a mão pela minha boca e vi que conseguia movimentar os lábios normalmente, por mais que a mandíbula doesse bastante. Tudo doía. Seriam três horas de manhã?

Assustada, direcionei o sofrido corpo para um dos lados da cama sem conseguir formular pensamentos lineares. Os olhos cansados, com medo de se fecharem e não mais abrirem, continuaram esbugalhados por um tempo, encarando o nada. Naquela noite, não consegui rezar. O pavor e a dor eram tamanhos que entrei em um estado de exaustão profundo. Olhando hoje, confesso que não sei se dormi ou desmaiei. 

Não sei onde os ponteiros estavam quando despertei naquela manhã de sábado. O céu já estava azul e iluminava boa parte do quarto dentre as cortinas entreabertas. Exausta, pensei “Que sonho terrível!”. A única explicação era essa: um sonho muito intenso, uma paralisia do sono gravíssima. Eu já havia ouvido falar sobre isso, tratava-se de um estranho descompasso entre o cérebro e o mecanismo de ativação dos músculos e acontecia, normalmente, nos primeiros minutos ao acordar. Eu não sabia explicar quando havia acontecido, mas eu sabia o que eu havia sentido.

Mas… a paralisia do sono poderia deixar marcas reais? Físicas?

Ao me levantar, notei que meus pés tocaram um espaço do piso diferente do que normalmente encostavam. Minha singela cama de solteiro estava arrastada em direção ao meio do quarto. A cabeceira se mantinha quase que no lugar de sempre, um pouco encostada junto à parede, mas o restante do móvel se direcionava ao espaço central do cômodo. Me distanciei para observar a cena que não conseguia explicar. Os lençois revirados por um pesadelo eram explicáveis, mas a cama? 

Com os braços esticados ao lado do corpo e olhando em direção ao chão, notei algo a mais em mim mesma. Ambos os meus pulsos estavam avermelhados. Como se lesionados após um grande emprego de força, a parte da pele que ligava meus braços às minhas mãos trazia algo de muito real em tudo que havia acontecido. Eu estava machucada. Eu havia vivenciado a maior instância de assombro. Seja o que, ou quem for, ele me tocou. Eu já não era uma criança sendo somente observada enquanto dormia. Era uma adulta que podia ser ferida, mesmo que não soubesse como ou o porquê.

Sem saber como reagir, arrastei a cama ao seu local de origem, pensando, enquanto isso, que aquilo não poderia ter sido feito por mim enquanto eu dormia – mesmo se eu estivesse em meio a um pesadelo. Móveis grandes não se moviam. Ou se moviam? Ao meu redor, tudo era real. O espiritual invadia minha vida terrena sem pedir licença. 

Por mais que os meus pulsos tenham melhorado e a cama tenha se mantido no mesmo lugar onde a coloquei, algumas marcas, caro leitor, nunca vão embora. Essas fazem morada na mente. O antigo quarto rosa, que hoje deixo para os hóspedes, ainda foi meu lar particular por alguns anos depois desse acontecimento. Se aconteceu algo a mais? Sim. Mas isso eu deixo para o próximo relato. 

Atenciosamente, 

A Mulher da Pena Dourada


6 respostas a “Marcas reais”

  1. Avatar de Helga
    Helga

    Sinto tanto que você tenha vivenciado tantas experiências traumáticas assim. Espero que poder falar sobre elas hoje seja um sinal de que tudo está bem 🤍

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    1. Avatar de A Pena Dourada

      Obrigada pelo carinho! A escrita faz parte da cura!

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  2. Avatar de Myriane Gomes
    Myriane Gomes

    Nossa! Depois de tanto tempo o visitante voltou a te perseguir…curiosa para saber se você descobriu informações sobre ele

    Curtido por 1 pessoa

  3. Avatar de GFX Argent
    GFX Argent

    Esse é o conto que mais me impactou! A angústia e o medo, a sensação de impotência!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Avatar de A Pena Dourada

      Obrigada pelo comentário! Realmente, é um relato muito intenso.

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