A linhagem paterna

Hoje vejo que a minha obsessão pela minha linhagem materna me fez desviar os olhos e os pensamentos da minha família paterna. Não que eu me culpe por isso. Como uma criança poderia se aproximar de pessoas que ela não tinha tanta convivência ao longo do seu crescimento? Mesmo assim, com o decorrer dos anos, passei a direcionar parte da minha atenção a este lado da árvore genealógica. Mesmo que o foco fossem aqueles que não estão mais entre nós. 

Conheci ambos os meus avós paternos. A casa deles poderia ter sido meu refúgio na cidade grande, mas a frequentei por poucos anos durante a infância. Os vídeos ali gravados por um tio e hoje armazenados em empoeiradas fitas em VHS exibem que ali eu fui sim, em certa medida, uma menininha alegre e feliz. Eu corria pelo jardim e brincava. Eu colhia flores e ria com os primos. Por alguma razão, talvez pelo curto período de tempo que aquela casa perdurou, essa felicidade não reverberou em mim. Ela me faz sorrir quando hoje me lembro. Mas ela não preenche, naturalmente, a minha alma. Você entende o que eu digo, caro leitor? 

Meus avós paternos eram pessoas humildes, vindas de lares onde o chão era de terra batida. Chão esse que sequer era deles, mas sim garantido em troca dos trabalhos: na lavoura da roça pelo meu avô e na cozinha das fazendas pela minha avó. Junto a eles, os filhos – aqueles que sobreviviam ao parto – trabalhavam assim que podiam andar e manusear o instrumento de trabalho. Então, a casa na “cidade grande” era sim uma vitória, por mais simples que fosse. Quando criança, obviamente, eu não possuía essa consciência. Somente fui me dar conta do sofrimento dessa linhagem conforme crescia e ouvia os relatos. Relatos que envolviam também boas lembranças, claro. Mas que também envolviam assombros. 

Após a morte do meu avô, a casa foi vendida. Minha avó, cuidada pelos filhos, ainda viveu bastante, sendo a que mais me viu crescer. Apesar disso, acredito que ao final, já acamada, ela sequer me reconhecia. Eu, por outro lado, a conheci mais depois que ela faleceu. O mesmo para o meu avô. Já basicamente adulta, passei a me interessar por quem eles foram. Vidas tão diferentes da minha, realidades tão distantes de mim… Viveram situações que nunca vivi e que acredito que jamais presenciarei. 

Após a morte de seus pais e quando passou a aceitar o meu interesse pelo sobrenatural, meu pai se abriu. O rígido senhor de cabelos brancos e óculos de grau finalmente deixava alguma emoção transparecer. E com elas, vieram as histórias… Apesar de não possuir uma memória tão afiada como minha mãe, meu pai se recordava de detalhes impressionantes de sua infância, antes mesmo dos cinco anos de idade. A família morou em tantos lugares que é difícil acompanhar a trajetória… uma confusão de fazendas, patrões e empregados. Mesmo assim, alguns relatos saltam os olhos.

Contou ele que, certa noite quando ainda moravam na roça, enquanto todos foram à missa, meu avô decidiu ficar em casa. Sério e muito cético, ele não se importava em permanecer sozinho, com apenas o filho mais novo adormecido no berço. A escuridão da noite, para quem vive na roça, consome todos os espaços; mas para isso havia um lampião. Não havia o que temer, era somente um dia comum. Era o que pensavam até retornarem da missa. Ao entrarem na simples casa de pau-a-pique encontraram outro homem: tomado por pavor, meu avô andava de um lado para o outro com o caçula no colo, que quase explodia os pequenos pulmões de tanto chorar. 

Com os olhos azuis esbugalhados, ele gaguejava e se mostrava impossibilitado de relatar o que havia acontecido. Preocupada, minha avó acolheu e envolveu o bebê em seus braços, ao passo que tentava acalmar o marido que, transpirando excessivamente, não formulava frases lineares. Conforme a noite adentrava, ele conseguiu explicar que tudo parecia tranquilo quando uma estranha brisa passou pelas gretas das portas e janelas, causando uma incomum friagem para aquela época do ano. 

Incomodado, levantou-se da cadeira em que repousava e antes de conseguir dar mais de dois passos em direção à parte da frente da casa, foi detido por um tremor repentino. A estrutura da pequena casa, que mais me soava como uma cabana, estremeceu violentamente, e o fez paralisar em meio ao simples cômodo. Apoiado em um móvel qualquer, visualizou que as portas e janelas tremiam de forma intencional, como se algo externo as forçasse, causando batidas agressivas. Não se tratava de uma vibração vinda da terra, algo parecia querer entrar. 

Sem compreender o que se passava, se deu conta do perturbador choro do filho, o que o levou a pegá-lo no colo pela primeira vez desde seu nascimento. Com um balançar desajeitado, tentava acalmar a criança ao mesmo tempo que se encolhia em um canto qualquer da casa. Agachando-se, começou a sentir pedaços do simples telhado de sapé caírem sobre seus ombros, junto com pequenas pedrinhas que se acumulavam junto à poeira do telheiro. O que quer que fosse parecia querer destruir a casa.

Assistindo as madeiras das portas e janelas sofrerem impactos brutais e com os olhos tomados por lágrimas, o choro do bebê aumentava e tornava-se mais estridente conforme ele acolhia a criança cada vez mais perto de seu pescoço até que… acabou. Suavizando as rugas entre os seus olhos, ele lentamente se levantou do chão de terra batida, ainda tentando compreender o que havia acontecido. Permaneceu ali, no canto do cômodo, por alguns instantes, encarando a parte da frente da casa, aguardando algo entrar. Mas não aconteceu.

Taquicárdico, ele começou a andar de um lado para o outro a fim de se acalmar e conter o choro do bebê que, a essa altura, estava tomado por uma vermelhidão preocupante, advinda provavelmente do calor, do choro e do estresse. Enquanto tentava organizar seus pensamentos, começou a ouvir de longe conversas e risos familiares. A família estava retornando da missa. Seria por isso que aquilo havia ido embora? Ele não sabia explicar.

De acordo com meu pai, essa foi a primeira e única vez que ele viu meu avô dessa forma. Contou ainda que ele nunca mais foi o mesmo. Ao mesmo tempo que se calou ainda mais, tornou-se nostálgico, mencionando, por vezes, seu passado familiar, em especial seu pai. Tomado por uma eterna suspeita, ele iniciou um ciclo de desconfiança e preocupação com os arredores da casa. Algo o vigiava, ele dizia. O senhor bruto e rústico passou a encarar espaços vazios, a olhar para portas e janelas aguardando que aquele ser voltasse. Ao que me foi contado, isso nunca aconteceu. Ele, junto a um bebê de alguns meses, foi a única testemunha daquele ataque que ele, antes cético, acreditava ter sido sobrenatural. 

Conforme os anos passavam, meu pai me relatava mais acontecimentos em torno de sua família. Pude notar, então, que eu nunca fui a única a vivenciar essas experiências, era apenas a mais jovem da família a relatá-las. Seria uma herança? O véu não era menos espesso apenas para mim… Meus antepassados, nesse caso paternos, vivenciaram situações tão extremas quanto às minhas. Passei então a me interessar cada vez mais por esse lado da minha genealogia. O que mais havia acontecido? Onde? Em quais circunstâncias? Os relatos foram se empilhando.

Mais membros da família vivenciaram esse tipo de acontecimento? E os pais dos meus avós paternos? Quem eram? Eles também relataram situações semelhantes? Infelizmente, em uma época e local nos quais a expectativa de vida era baixa, as pessoas faleciam jovens e tinham menos tempo para relatarem suas histórias. Meu pai não se recordava muito sobre casos misteriosos de seus avós, tendo conhecido poucos de seus antepassados. Mesmo assim, eu adormecia pensando nas histórias e no que aquilo representava para mim. Não apenas minha linhagem materna respirava o mistério, o lado paterno também exalava o mesmo perfume. 

Ao decorrer do tempo, minha “nova” obsessão tornou-se algo corriqueiro e minhas investigações e interrogatórios se acalmaram. Como mencionei, meu pai não possuía a mesma memória – nem paciência – que minha mãe para esse assunto. Continuei minha vida normalmente em meio aos meus afazeres. Focada sempre em manter tudo o que me competia em seu devido lugar, a cada semestre eu removia absolutamente tudo de todos os espaços do meu quarto para limpá-los e ordená-los conforme minhas necessidades. Tratava-se da máxima “desorganizar para organizar”. 

Esse era um desses momentos. Em cima da cama e da escrivaninha, roupas, acessórios, itens de decoração. Absolutamente tudo estava revirado. Por mais estranho que pareça, esse era um momento de paz e, ao mesmo tempo, divertido para mim. Empolgada por ter substituído o antigo armário de madeira por um novo e planejado, eu estava de pé em cima de um antigo tamborete de madeira a fim de alcançar as partes mais altas do móvel embutido, o qual limpava com bastante dedicação. 

Senti, como se algo estranho se aproximasse, uma leve e fria brisa em meus tornozelos. A sensação me fez endireitar o corpo que, por estar mais alto que o normal, se enrijeceu em cima do tamborete pelo medo de cair. De costas para o restante do quarto, fixei meus olhos ao fundo da prateleira que limpava e tentei decifrar o que estava sentindo… algo peculiar me incomodava. Me senti… observada. Naquele momento, um sábado de manhã, meus pais estavam em seu próprio quarto, tão próximos de mim que eu podia ouvir suas conversas. Mesmo assim, não tão perto a esse ponto. 

Ainda com o corpo em direção ao armário, desci cuidadosamente do banco de madeira, apoiando as mãos nas prateleiras, como se em uma escalada invertida. Virei-me ao restante do quarto e me deparei com algo até então inimaginável. Sentado em minha cadeira de estudos, de frente para mim, estava um senhor claro, talvez um pouco queimado pelo sol, grisalho e com barba por fazer. A camisa xadrez em tons de bege e de mangas três quartos estava com os primeiros botões abertos, o que permitia ver alguns dos pelos do peito, também esbranquiçados. 

Em questão de segundos, captei esses e alguns outros detalhes de sua aparência, enquanto corri para fora do cômodo. Rapidamente passei pelo corredor e me direcionei à sala, onde, como uma criança, encolhi as pernas junto ao tronco e chorei. Assustada, vi dentro da minha própria mente aqueles olhos claros que me fitaram com uma observação tranquila, como alguém que você olha de passagem enquanto aguarda uma fila no banco. Um desconhecido que, por alguma razão, me acompanhou em um dia qualquer. 

O choro provavelmente atraiu meus pais que adentraram a sala correndo até mim. Expliquei, em meio às lágrimas, que havia um homem no meu quarto. Enquanto sentia o abraço da minha mãe, meu pai se direcionou rapidamente até o referido cômodo, de onde voltou balançando a cabeça em sinal de negativa. Me senti, como muitas vezes antes, uma criança presa no corpo de uma adulta. Sem saber me explicar, tentei relatar o ocorrido. Nada diferente estava acontecendo naquela manhã, tudo começou com aquela brisa, aquela sensação… 

Embora assustada, contei que o senhor em si não me transmitiu medo propriamente dito. Me assustou por ser um desconhecido em meu quarto. Um espírito, mas nitidamente alguém. Era diferente de tudo que já havia visto antes. Não se tratava de uma figura escura e sem traços. Era literalmente um homem. Narrei sua aparência e detalhei como pude os seus traços faciais, que foram o meu foco quando me virei. Apesar da rapidez com que saí do quarto, pude reparar formatos e especificidades que me lembravam a alguém… me lembravam o vovô. Pai do meu pai. Mas não era ele. Eu o conheci com aquela idade, mais velho, eu saberia distingui-lo, tenho sua face gravada em minha mente… e não era aquela. Isso era indiscutível. Mesmo assim, algo me rememorava ele. 

Conforme expunha minha descrição, observei que meus pais se entreolharam e notei microexpressões se movimentarem no rosto do meu pai. Com talvez algum tipo de satisfação, ele disse que a minha descrição, inclusive da vestimenta, se assemelhava muito a de seu avô, pai de seu pai. Concordamos em detalhes muito específicos de sua aparência e nenhuma divergência gritante foi constatada. Mas por que ele estava ali? Eu não o conhecia. Ele faleceu muitos anos antes do meu nascimento. Por que estaria em meu quarto?

Caro leitor, alguns acontecimentos não se explicam, somente se supõem. Supus, então, que aquele era meu bisavô paterno que, ciente dos meus interesses, quis se mostrar para mim. Hoje, com o conhecimento que adquiri sobre o outro mundo, sei dos espíritos familiares, que nos acompanham e que têm interesse em nossas vivências simplesmente por sermos quem somos. Simplesmente por termos nascido de quem nascemos. Uma árvore genealógica não é apenas uma questão genética, ela carrega laços eternos, inclusive com aqueles que não tivemos a oportunidade de conhecer. 

Não herdamos, portanto, somente os traços faciais e a cor dos cabelos, herdamos a capacidade de vivenciar o inexplicável, de ver o incorpóreo. Normalmente, aqueles que veem quando vivos, também são capazes de se mostrarem quando desencarnados. Essas habilidades advêm da mesma fagulha espiritual. Questiono-me se, quando eu me for, serei curiosa sobre meus descendentes. Com aqueles encarnados que, mesmo muitos anos depois da minha morte, estejam conectados comigo por meio da história familiar. Acredito que se hoje eu me interesso pelos que se foram e que se eles se interessam por mim, eu continuarei, mesmo depois do fim, atenta aos que ficaram e aos que virão depois de mim. 

Por fim, saiba que essa conexão entre familiares que nunca se conheceram não é incomum na minha linhagem. Por parte materna, isso também já ocorreu. Essa história, entretanto, eu deixo para o próximo relato. 

Atenciosamente, 

A Mulher da Pena Dourada.


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